Xícara de chá-mate coado ao lado de cuia de chimarrão e guampa de tereré

Chá-Mate: tradição, preparo e energia consciente

O chá-mate é mais do que uma bebida estimulante. Ele é cultura, memória coletiva, rito de encontro e fonte de energia que atravessa séculos.

Presente no cotidiano de povos indígenas da América do Sul muito antes da chegada dos europeus, a erva-mate (Ilex paraguariensis) tornou-se símbolo de partilha, resistência e vitalidade.

No Benverde, olhamos para o chá-mate não como um “substituto do café”, mas como uma planta com identidade própria, que oferece estímulo de forma mais gradual, acompanhada de compostos bioativos que dialogam com o corpo de maneira ampla e inteligente.

plantação de erva mate em ambiente natural

A planta que sustenta a cuia

A erva-mate pertence à família Aquifoliaceae e é nativa das regiões subtropicais do Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Suas folhas, após colheita e secagem, dão origem a diferentes formas de consumo: chimarrão, tereré e, de forma mais universal, o chá-mate preparado por infusão.

Rica em cafeína natural, teobromina, polifenóis e saponinas, a erva-mate, conforme demonstram estudos da Embrapa sobre a composição química e os compostos bioativos da Ilex paraguariensis, oferece um estímulo que se manifesta como aumento de alerta, melhora da disposição e sensação de clareza mental, sem o “pico abrupto” típico de algumas bebidas energéticas artificiais.

Energia que nasce da tradição

Entre os povos guaranis, a erva-mate era considerada uma planta sagrada, associada à força vital e à capacidade de manter o corpo desperto para a caça, a vigília e os rituais. Com o tempo, seu uso se expandiu para os lares, os campos, as universidades e os encontros sociais.

A cuia que passa de mão em mão não é apenas um recipiente: é um gesto de confiança, de comunhão e de pausa ativa: aquela pausa que desperta, em vez de sedar.

Chá-mate como bebida energizante natural

Diferentemente dos estimulantes sintéticos, o chá-mate atua de forma mais equilibrada. A presença combinada de cafeína, teobromina e antioxidantes contribui para:

  • Aumento gradual da energia física e mental

  • Melhora da atenção e da concentração

  • Sensação de bem-estar associada ao estímulo suave

  • Apoio ao metabolismo e à termogênese

Essa combinação faz do chá-mate uma escolha interessante para quem busca vitalidade sem excessos.

Como preparar a erva-mate: chá, chimarrão e tereré

A erva-mate pode ser consumida de diferentes formas. Embora o chá-mate, o chimarrão e o tereré sejam preparados com folhas de Ilex paraguariensis, eles utilizam produtos, proporções, temperaturas e utensílios diferentes.

Por isso, antes do preparo, observe a indicação da embalagem. A erva destinada ao chimarrão costuma apresentar moagem mais fina; a utilizada no tereré geralmente é mais grossa e contém menos pó; já o chá-mate encontrado no Brasil é frequentemente produzido com folhas e ramos tostados.

1. Como preparar o chá-mate

Água quente sendo despejada sobre mate tostado em infusor dentro de bule de vidro

O chá-mate é a forma mais semelhante a uma infusão convencional. Pode ser preparado com mate tostado ou com folhas próprias para infusão, conforme a indicação do fabricante.

Ingredientes

  • 4 a 5 gramas de chá-mate tostado;

  • 250 ml de água filtrada.

Modo de preparo

  1. Aqueça a água até aproximadamente 90 °C, quando surgirem pequenas bolhas, mas antes de uma fervura intensa.

  2. Desligue o fogo e acrescente o chá-mate.

  3. Tampe o recipiente e deixe em infusão por 3 a 5 minutos.

  4. Coe e aguarde até que a bebida esteja em temperatura confortável antes de consumir.

Quanto maior o tempo de contato com a água, mais intensos tendem a ficar o sabor amargo e a extração da cafeína. Para um chá mais suave, comece com três minutos de infusão e ajuste nas preparações seguintes.

As folhas não precisam ser fervidas junto com a água. A fervura prolongada pode deixar a bebida excessivamente amarga.

O chá-mate também pode ser consumido frio. Nesse caso, prepare a infusão normalmente, deixe esfriar e conserve na geladeira em recipiente tampado. O ideal é evitar grandes quantidades de açúcar, que podem transformar uma bebida simples em uma fonte importante de açúcares adicionados.

2. Como preparar o chimarrão

Água sendo colocada junto à bomba em cuia com erva-mate inclinada para preparar chimarrão

O chimarrão é preparado com erva-mate verde de moagem fina, servida em uma cuia e consumida por meio de uma bomba. Diferentemente do chá, a erva permanece no recipiente e recebe pequenas quantidades de água ao longo do consumo.

A quantidade em gramas varia conforme o tamanho e o formato da cuia. Por isso, no preparo tradicional, utiliza-se a proporção visual de aproximadamente dois terços a três quartos da capacidade do recipiente.

Você vai precisar de

  • erva-mate própria para chimarrão;

  • água filtrada entre 70 e 80 °C;

  • cuia;

  • bomba própria para chimarrão.

Modo de preparo

  1. Coloque a erva na cuia, preenchendo aproximadamente dois terços ou três quartos do recipiente.

  2. Incline a cuia com cuidado, formando uma espécie de montinho de erva em um dos lados e deixando um espaço livre no outro.

  3. Despeje um pouco de água morna no espaço vazio, sem molhar toda a superfície.

  4. Aguarde cerca de um minuto para que a erva absorva a água.

  5. Tampe a abertura da bomba com o dedo, introduza-a até o fundo da parte umedecida e somente então libere a abertura.

  6. Acrescente pequenas quantidades de água quente, sempre no mesmo espaço ao redor da bomba.

  7. Repita o processo enquanto a erva conservar sabor.

A água não deve estar fervendo. Além de aumentar o risco de queimadura, a temperatura excessiva pode tornar o chimarrão mais amargo e extrair seus componentes de forma muito rápida. O Instituto Nacional da Erva-Mate da Argentina recomenda água entre 75 e 80 °C, faixa que também ajuda a preservar o sabor da bebida.

Depois de posicionada, evite movimentar a bomba. Mexê-la constantemente pode desmanchar a estrutura da erva e causar entupimentos.

3. Como preparar o tereré

Água gelada sendo despejada junto à bomba em guampa com erva-mate para tereré

O tereré é uma preparação tradicional feita com água fria e erva-mate de moagem mais grossa. É especialmente associado à cultura paraguaia e a regiões quentes do Brasil e da Argentina.

Segundo a Unesco, que reconheceu as práticas e os conhecimentos tradicionais do tereré como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, a bebida está profundamente ligada à hospitalidade, ao convívio comunitário e à transmissão de saberes de origem guarani.

Você vai precisar de

  • erva-mate própria para tereré;

  • água filtrada bem fria;

  • gelo;

  • guampa, copo resistente ou recipiente próprio;

  • bomba.

Modo de preparo

  1. Encha aproximadamente dois terços do recipiente com erva própria para tereré.

  2. Incline-o levemente para concentrar a erva em um dos lados.

  3. Coloque um pouco de água fria no espaço livre e aguarde alguns segundos.

  4. Introduza a bomba na parte umedecida.

  5. Em uma jarra ou garrafa térmica, coloque entre 500 ml e 1 litro de água filtrada e gelo.

  6. Despeje pequenas quantidades da água fria ao redor da bomba, repondo conforme a bebida for consumida.

A erva específica para tereré possui moagem mais grossa e menor quantidade de pó, o que reduz a possibilidade de entupimento da bomba.

A água pode ser aromatizada com rodelas de limão, folhas de hortelã ou outras ervas culinárias conhecidas. Misturas com plantas medicinais, entretanto, exigem atenção: natural não significa automaticamente seguro, e a combinação pode não ser adequada para todas as pessoas.

Os três preparos fornecem a mesma quantidade de cafeína?

Não necessariamente.

No chá-mate, a quantidade de folhas, de água e o tempo de infusão são mais fáceis de controlar. No chimarrão e no tereré, a mesma porção de erva recebe sucessivas adições de água, prolongando a extração.

A quantidade total de cafeína pode variar de acordo com:

  • o tipo e a procedência da erva;
  • a quantidade colocada no recipiente;
  • a temperatura da água;
  • o volume total consumido;
  • o número de reposições;
  • o tempo de contato entre a erva e a água.

Por isso, uma roda prolongada de chimarrão ou tereré não deve ser considerada equivalente a apenas uma xícara de chá. Pessoas sensíveis à cafeína devem observar a quantidade total consumida e evitar essas bebidas próximo ao horário de dormir.

Independentemente da forma escolhida, o melhor preparo é aquele que respeita a tradição, o paladar e os limites de cada pessoa — sem água excessivamente quente e sem transformar o estímulo oferecido pela erva-mate em substituto para o descanso.

O que a ciência diz sobre a erva-mate?

A erva-mate (Ilex paraguariensis) é uma planta nativa da América do Sul e uma das bebidas mais tradicionais do Brasil, do Paraguai, da Argentina e do Uruguai. Suas folhas são utilizadas em diferentes preparações, como chá-mate, chimarrão e tereré.

Entre seus principais componentes estão a cafeína, pequenas quantidades de teobromina, os ácidos clorogênicos, outros compostos fenólicos e as saponinas. A quantidade dessas substâncias pode variar conforme a origem das folhas, o processamento — verde ou tostado —, a proporção utilizada e o modo de preparo da bebida.

Por que o chá-mate desperta?

O efeito estimulante da erva-mate está relacionado principalmente à cafeína. Ela atua bloqueando temporariamente a ação da adenosina, uma substância que participa da sensação de cansaço e sonolência. Por isso, o consumo pode aumentar o estado de alerta, favorecer a atenção e diminuir a percepção de fadiga por algum tempo.

A Agência Europeia de Medicamentos reconhece o uso tradicional das folhas de Ilex paraguariensis para o alívio temporário do cansaço e da sensação de fraqueza. Esse reconhecimento se apoia em seu uso prolongado e na presença de cafeína, mas não significa que a bebida trate as causas de uma fadiga persistente.

A resposta também varia de pessoa para pessoa. Algumas percebem mais disposição, enquanto outras podem apresentar agitação, palpitações, desconforto digestivo ou dificuldade para dormir, especialmente quando consomem preparações concentradas ou próximas ao horário de descanso.

Compostos fenólicos e ação antioxidante

A erva-mate contém compostos fenólicos, entre eles os ácidos clorogênicos, que demonstram atividade antioxidante em análises laboratoriais. Essas substâncias ajudam a neutralizar moléculas instáveis conhecidas como radicais livres e despertam interesse por sua possível participação na proteção contra o estresse oxidativo.

Entretanto, encontrar atividade antioxidante em laboratório não é o mesmo que comprovar a prevenção de doenças no organismo humano. A absorção dos compostos, a quantidade consumida e a alimentação como um todo também influenciam seus efeitos. Por isso, é mais correto afirmar que a erva-mate é uma fonte alimentar de compostos bioativos, e não que ela protege as células ou previne doenças de forma isolada.

O que já foi observado sobre metabolismo e saúde cardiovascular?

Alguns estudos clínicos investigaram possíveis efeitos da erva-mate sobre glicemia, colesterol, peso corporal e outros marcadores metabólicos. Os resultados, porém, ainda não permitem conclusões definitivas.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, que reuniu 13 estudos clínicos randomizados, encontrou sinais de melhora em alguns marcadores de controle glicêmico entre pessoas com pré-diabetes. Entretanto, esses resultados foram baseados em poucos estudos e ainda precisam ser confirmados. Na análise geral, não foram observadas mudanças significativas no peso, na circunferência abdominal, na glicemia de jejum, na insulina ou nos níveis de colesterol e triglicerídeos.

Outra revisão sistemática sobre o perfil lipídico também concluiu que o consumo de erva-mate não produziu alterações significativas no colesterol total, LDL, HDL ou triglicerídeos quando comparado aos grupos de controle.

Essas diferenças entre os estudos podem estar relacionadas às quantidades utilizadas, ao tempo de consumo e às diversas apresentações da erva-mate. Resultados obtidos com extratos concentrados, cápsulas, chimarrão ou grandes volumes da bebida não devem ser automaticamente atribuídos a uma xícara comum de chá-mate.

A temperatura da bebida também merece atenção

Quando o mate é consumido quente, existe um cuidado que não está relacionado à planta, mas à temperatura da bebida.

A Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, ligada à Organização Mundial da Saúde, considera o consumo habitual de bebidas muito quentes — acima de aproximadamente 65 °C — provavelmente associado a maior risco de câncer de esôfago. Essa avaliação se aplica a qualquer bebida ingerida em temperatura excessivamente alta, e não somente ao mate.

Na prática, o mais prudente é aguardar alguns minutos e consumir o chá em uma temperatura confortável, sem sensação de ardência na boca ou na garganta.

A ciência, portanto, ajuda a explicar por que a erva-mate desperta e investiga seus diferentes compostos bioativos. Há resultados promissores em algumas áreas, mas ainda não é possível tratá-la como solução para emagrecimento, colesterol elevado, diabetes ou outras condições de saúde.

Como parte de uma rotina equilibrada, o chá-mate pode oferecer sabor, tradição e um estímulo natural. Seus possíveis benefícios devem ser compreendidos dentro do conjunto da alimentação e do estilo de vida — nunca como substitutos de acompanhamento ou tratamento profissional.

Conclusão: uma planta, diferentes formas de compartilhar

A erva-mate atravessa gerações e fronteiras sem perder sua capacidade de reunir pessoas. Ela pode chegar à mesa como uma xícara de chá-mate, aquecer uma roda de chimarrão ou refrescar uma tarde por meio do tereré.

Cada preparo possui seu próprio ritmo.

O chá convida a uma pausa individual e pode acompanhar o início do dia ou um momento de concentração. O chimarrão transforma a bebida em encontro, conversa e partilha. O tereré, servido frio, traz consigo a memória dos povos guarani e a tradição de buscar frescor, convivência e proximidade com a natureza.

A ciência ajuda a compreender a presença da cafeína e de outros compostos bioativos da Ilex paraguariensis, mas também nos ensina a evitar promessas exageradas. A erva-mate pode fazer parte de uma rotina equilibrada, porém não substitui o descanso, uma alimentação variada ou os cuidados necessários com a saúde.

Consumida com moderação, em temperatura confortável e respeitando a sensibilidade de cada pessoa, ela oferece algo que ultrapassa seus componentes: um ritual capaz de despertar o corpo, marcar uma pausa e aproximar quem compartilha o mesmo momento.

Talvez seja essa a sua maior riqueza.

Em uma xícara, uma cuia ou uma guampa, a erva-mate continua contando a história de uma planta sul-americana que aprendeu a transformar água, folhas e tempo em presença.

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