Xícara de chá de losna coado com ramos de Artemisia absinthium ao redor

Chá de losna: benefícios, usos e como preparar

O chá de losna, preparado com Artemisia absinthium L., pertence a uma longa tradição de uso de plantas intensamente amargas, especialmente em situações relacionadas ao apetite e ao desconforto digestivo.

Mas a losna exige mais cautela do que muitas infusões de uso cotidiano.

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) reconhece preparações da planta como produtos medicinais tradicionais para perda temporária de apetite e distúrbios dispépticos ou gastrointestinais leves. Esse reconhecimento se baseia principalmente no histórico prolongado de utilização, e não em evidência clínica robusta equivalente à exigida para um medicamento de eficácia bem estabelecida. European Medicines Agency (EMA)

Além disso, Artemisia absinthium pode conter tujona, substância presente no óleo volátil da planta e relevante do ponto de vista de segurança. Sua concentração varia conforme o quimiotipo, a origem da matéria-prima, a época de colheita e a forma de preparação.

Resumo rápido do chá de losna

Nome científico

Artemisia absinthium L.

Família botânica

Asteraceae

Parte utilizada

Partes aéreas secas da planta, conforme especificação farmacopéica

Categoria

Chás Terapêuticos

Sabor

Intensamente amargo

Uso tradicional reconhecido

Perda temporária de apetite e desconfortos digestivos leves

Referência de preparo

1 a 1,5 g em 150 mL de água fervente

Faixa etária

Uso medicinal destinado a adultos

Atenção especial

A planta pode conter tujona; concentração e duração do uso importam para a segurança

O que é a losna?

planta losna artemisia absinthium na natureza com folhas verde prateadas

A Artemisia absinthium pertence à família Asteraceae e é conhecida pelo sabor extraordinariamente amargo.

Na referência farmacopéica europeia, a matéria-prima medicinal corresponde principalmente às folhas basais e às extremidades floridas levemente folhosas, secas, inteiras ou cortadas, ou à mistura dessas partes. 

Entre seus constituintes encontram-se lactonas sesquiterpênicas amargas, como absintina e anabsintina, além de flavonoides, ácidos fenólicos e um óleo volátil cuja composição pode variar bastante.

É nesse óleo volátil que podem aparecer α-tujona e β-tujona. Entretanto, existem diferentes quimiotipos de Artemisia absinthium: algumas plantas contêm mais tujona, outras muito menos e algumas apresentam outros compostos predominantes. 

Essa variação é uma das razões pelas quais “losna” não deve ser tratada como uma erva para medir livremente em punhados ou colheres.

Para que a losna é usada tradicionalmente?

A monografia da EMA reconhece dois usos medicinais tradicionais para preparações de Artemisia absinthium:

  • perda temporária de apetite;
  • distúrbios dispépticos ou gastrointestinais leves.

Essas indicações são classificadas como uso tradicional, ou seja, baseiam-se sobretudo na longa história de utilização da planta. A própria EMA observa que faltam estudos adequados em pacientes para estabelecer eficácia clínica bem comprovada nessas situações. European Medicines Agency (EMA)

Isso é bem diferente de dizer que a losna “trata problemas digestivos”.

Também não há base suficiente para apresentar o chá como tratamento para asma, bronquite, infecções, baixa imunidade, artrite, ansiedade ou outras condições que frequentemente aparecem em listas de “benefícios da losna” na internet.

Como preparar o chá de losna

Chá de losna coado ao lado da planta seca e de recipiente usado para a infusão

A monografia europeia utiliza, para adultos:

Referência de preparo

1 a 1,5 g da droga vegetal seca e fragmentada
150 mL de água fervente

A preparação é feita por infusão.

Para perda temporária de apetite, a referência indica o uso antes das refeições; para desconfortos digestivos leves, depois das refeições. A quantidade diária total descrita na monografia é de 2 a 3 g da droga vegetal. 

A monografia atual não estabelece no texto um tempo universal de infusão. Por isso, quando se utiliza um produto medicinal ou matéria-prima comercial devidamente identificada, o mais adequado é respeitar também as instruções específicas do produto.

Por que não usar colheres?

Colheres não oferecem uma medida adequada para uma planta cuja quantidade utilizada e cujo teor de componentes voláteis são relevantes para a segurança. O ideal é trabalhar em gramas.

O que a ciência diz sobre a losna

Uso digestivo e apetite

O sabor amargo da losna oferece uma explicação farmacológica plausível para seu uso tradicional relacionado ao apetite e à digestão. Estudos laboratoriais e animais também investigaram diferentes ações de preparações da planta.

Entretanto, ao avaliar a literatura, a EMA concluiu que os dados clínicos não são suficientes para estabelecer essas indicações como usos medicinais de eficácia bem comprovada. Por isso, elas permanecem classificadas como tradicionais. European Medicines Agency (EMA)

Isso é importante: uma longa tradição de uso pode justificar investigação e reconhecimento regulatório tradicional, mas não substitui ensaios clínicos de boa qualidade.

E os estudos em doença de Crohn?

Há pequenos estudos clínicos bastante citados envolvendo Artemisia absinthium e doença de Crohn.

Em um estudo duplo-cego com 40 pacientes, uma preparação contendo losna em dose de 500 mg três vezes ao dia foi utilizada junto ao tratamento convencional enquanto os corticosteroides eram gradualmente reduzidos. Os resultados foram considerados promissores, mas o número de participantes foi pequeno. PubMed

Outro estudo controlado incluiu apenas 20 participantes e utilizou 750 mg de losna seca em pó três vezes ao dia, durante seis semanas. Foram observadas alterações em marcadores inflamatórios e na atividade da doença. PubMed

Esses trabalhos são interessantes para pesquisa, mas há três limites essenciais:

eram estudos pequenos, envolveram pessoas com uma doença complexa sob tratamento médico e utilizaram preparações em pó — não uma xícara de chá.

Revisões científicas sobre terapias vegetais para doenças inflamatórias intestinais consideram esses achados interessantes, porém destacam o pequeno número de ensaios e a heterogeneidade metodológica. PubMed

Portanto, eles não justificam usar chá de losna para tratar doença de Crohn.

E os efeitos antioxidantes, antimicrobianos e anti-inflamatórios?

Existem numerosos estudos experimentais com extratos, frações e óleo essencial de Artemisia absinthium. Eles ajudam a conhecer os constituintes e possíveis mecanismos da espécie.

Mas:

atividade em células ou animais ≠ benefício clínico comprovado em pessoas
e
extrato ou óleo essencial ≠ chá.

Essa distinção é particularmente importante na losna, porque mudar o solvente e a técnica de extração altera muito a quantidade de componentes que passam para a preparação, inclusive a tujona.

Chá, extrato e óleo essencial de losna não são a mesma coisa

O chá é uma preparação aquosa obtida pelo contato da droga vegetal com água quente.

Tinturas e extratos podem utilizar álcool e outros processos que modificam consideravelmente a quantidade e o tipo de substâncias extraídas.

Já o óleo essencial concentra os componentes voláteis da planta.

No caso da losna, essa diferença é especialmente relevante porque a tujona ocorre justamente na fração volátil.

Portanto:

não se deve adicionar óleo essencial de losna ao chá, nem utilizar doses ou conclusões de estudos com óleo essencial como se servissem para a infusão.

Comparação entre chá de losna, tintura, extrato seco em cápsulas e óleo essencial

Tujona: por que ela merece atenção?

A tujona é um constituinte que pode ocorrer no óleo volátil de Artemisia absinthium e possui potencial neurotóxico. A EMA recomenda preferir quimiotipos com baixo teor dessa substância. 

Na monografia atualmente publicada, produtos medicinais de losna devem ter a quantidade de tujona especificada e a exposição diária deve permanecer abaixo de 6 mg. European Medicines Agency (EMA)

Isso não significa que “6 mg de tujona” seja uma dose para o leitor calcular em casa.

Na realidade, ocorre justamente o contrário: a quantidade existente na planta pode variar consideravelmente conforme origem, quimiotipo, cultivo, época de colheita e processamento. Por isso, uma matéria-prima sem identificação e controle de qualidade não permite saber com precisão a exposição à tujona. 

Essa é mais uma razão para não preparar infusões excessivamente concentradas.

Quem deve evitar o chá de losna?

A monografia europeia traz precauções importantes.

O uso medicinal não é recomendado para menores de 18 anos, nem durante gestação ou amamentação, por falta de dados adequados de segurança. 

A losna também é contraindicada para pessoas com:

  • alergia à própria planta ou a outras espécies da família Asteraceae;
  • obstrução das vias biliares;
  • colangite;
  • doença hepática.

Pessoas com cálculos biliares ou outros distúrbios das vias biliares devem procurar avaliação médica antes do uso.

A EMA informa ainda que não há interações medicamentosas específicas relatadas na monografia. Isso é diferente de afirmar que todas as combinações possíveis foram devidamente estudadas. Portanto, eu retiraria do artigo antigo aquelas proibições genéricas envolvendo anticoagulantes, ansiolíticos e “medicamentos para o fígado” sem uma referência específica. 

Se os sintomas piorarem durante o uso ou persistirem por mais de duas semanas, a recomendação é procurar avaliação profissional.

Uso popular × Ciência

Uso popular ou tradicional O que a ciência permite dizer
Estimular o apetite A perda temporária de apetite é um uso medicinal tradicional reconhecido pela EMA. O sabor amargo oferece plausibilidade para esse uso, mas faltam estudos clínicos robustos que estabeleçam eficácia bem comprovada.
Má digestão, sensação de peso e desconfortos gastrointestinais leves Preparações de Artemisia absinthium possuem uso tradicional reconhecido para distúrbios dispépticos e gastrointestinais leves. Esse reconhecimento não equivale à comprovação de que o chá trate doenças digestivas.
Ação anti-inflamatória e doença de Crohn Pequenos ensaios clínicos encontraram resultados interessantes com preparações de losna em pessoas com doença de Crohn. Entretanto, os estudos utilizaram pó ou formulações específicas, tiveram poucos participantes e não comprovam que o chá trate a doença.
Fortalecer a imunidade ou combater infecções Estudos experimentais investigam atividades antimicrobianas e outros efeitos de extratos e do óleo essencial. Isso não demonstra que a infusão fortaleça o sistema imunológico ou trate infecções em pessoas.
Aliviar asma, bronquite ou tosse Não há evidência clínica suficiente para apresentar o chá de losna como tratamento respiratório. Essas alegações não fazem parte das indicações tradicionais reconhecidas pela EMA.
Quanto mais forte o chá, maior o benefício Não. A concentração também influencia a exposição aos constituintes da planta. No caso da losna, a presença possível de tujona torna especialmente inadequado preparar infusões excessivamente concentradas.

Em resumo: a losna possui uma longa tradição medicinal, especialmente relacionada ao apetite e a desconfortos digestivos leves. Existem pesquisas interessantes com outras preparações da planta, mas tradição, atividade experimental e eficácia clínica do chá não são conceitos equivalentes.

Uma curiosidade histórica: a losna e o absinto

A história medicinal da losna é antiga. O relatório da EMA registra referências históricas à planta — ou a espécies próximas — desde o Egito antigo e também em textos médicos posteriores. 

Séculos depois, Artemisia absinthium tornou-se famosa por integrar a composição da bebida alcoólica conhecida como absinto.

Durante muito tempo, a tujona foi responsabilizada por praticamente todos os efeitos incomuns associados à bebida. Estudos históricos e toxicológicos modernos, porém, mostram que várias histórias sobre efeitos “alucinógenos” da tujona foram exageradas e que o elevado consumo de álcool provavelmente teve papel muito mais importante nos quadros históricos atribuídos ao chamado absintismo. PubMed

E, novamente, absinto, óleo essencial e chá de losna são preparações completamente diferentes.

Perguntas frequentes sobre o chá de losna

Para que serve o chá de losna?

O uso medicinal tradicional mais bem documentado de Artemisia absinthium está relacionado à perda temporária de apetite e a distúrbios digestivos leves. Esse reconhecimento se baseia no longo histórico de utilização da planta e não significa que o chá trate doenças.

Quanto de losna usar para preparar a infusão?

A monografia europeia utiliza como referência para adultos 1 a 1,5 g da droga vegetal seca e fragmentada em 150 mL de água fervente. Medir em gramas é mais adequado do que utilizar colheres ou punhados.

Chá de losna pode ser tomado todos os dias?

A losna não deve ser transformada em uma bebida de uso contínuo e indiscriminado. Se os sintomas persistirem por mais de duas semanas durante o uso medicinal, a orientação é procurar avaliação profissional.

Crianças e adolescentes podem tomar chá de losna?

O uso medicinal não é recomendado para menores de 18 anos porque não existem dados adequados para estabelecer sua segurança nessa faixa etária.

Gestantes e lactantes podem utilizar losna?

Não é recomendado o uso medicinal durante a gestação ou a amamentação. Além da falta de dados clínicos adequados, existem preocupações pré-clínicas relacionadas à segurança reprodutiva e à tujona.

Quem tem problemas no fígado ou na vesícula pode tomar?

Pessoas com obstrução das vias biliares, colangite ou doença hepática não devem utilizar preparações medicinais de losna. Quem possui cálculos biliares ou outros distúrbios biliares deve procurar orientação médica antes do uso.

O que é a tujona presente na losna?

A tujona é um componente que pode estar presente no óleo volátil de Artemisia absinthium. Em determinadas exposições apresenta potencial neurotóxico, razão pela qual a quantidade desse constituinte é considerada nas avaliações de segurança de produtos medicinais de losna.

Posso colocar óleo essencial de losna no chá?

Não. O óleo essencial é uma preparação concentrada e diferente da infusão. Ele concentra constituintes voláteis e não deve ser utilizado como substituto da planta seca na xícara.

Chá de losna trata doença de Crohn?

Não é correto afirmar isso. Pequenos estudos clínicos encontraram resultados interessantes com preparações específicas de losna em pacientes com doença de Crohn, mas utilizaram pó ou formulações diferentes da infusão. O chá não deve substituir o tratamento médico da doença.

A losna fortalece a imunidade?

Não há evidência clínica suficiente para afirmar que beber chá de losna fortaleça o sistema imunológico. Resultados laboratoriais obtidos com extratos ou outros preparados não devem ser transformados em benefícios comprovados da infusão.

Chá, tintura, cápsula e óleo essencial de losna são equivalentes?

Não. Cada preparação apresenta composição e concentração próprias. Resultados obtidos com pós, extratos, tinturas ou óleo essencial não podem ser automaticamente atribuídos ao chá.

Conclusão — tradição exige medida

A losna é uma planta de longa história medicinal, reconhecida principalmente por seu uso tradicional relacionado ao apetite e a desconfortos digestivos leves.

Mas sua antiguidade não transforma todos os usos populares em benefícios cientificamente comprovados.

No caso de Artemisia absinthium, essa distinção é ainda mais importante porque a composição da planta pode variar e porque entre seus componentes voláteis pode estar a tujona, substância que exige atenção em relação à quantidade e à forma de preparação.

Por isso, chá, pó, tintura, extrato e óleo essencial não devem ser tratados como versões intercambiáveis da mesma coisa.

Preservar a tradição da losna não significa utilizá-la sem limites. Significa reconhecer sua história, identificar corretamente a espécie, medir a matéria-prima, respeitar as contraindicações e compreender até onde a evidência científica realmente chegou.

Com a losna, talvez mais do que com muitas outras plantas, tradição e cautela precisam caminhar juntas.

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