A maca-peruana tornou-se conhecida no mundo inteiro em forma de pó, cápsulas e extratos, frequentemente acompanhada por promessas relacionadas à energia, libido, fertilidade, equilíbrio hormonal e desempenho físico.
Mas a história de Lepidium meyenii Walp. é muito mais interessante e também muito mais complexa do que essas promessas sugerem.
Antes de ser transformada em produto comercial, a maca era uma planta alimentícia cultivada nos Andes, adaptada a condições extremas de altitude. A parte subterrânea engrossada da planta é consumida tradicionalmente há gerações e contém amido, proteínas, fibras e diferentes classes de compostos secundários, incluindo glucosinolatos, macamidas, macaenos, esteróis e alcaloides.
Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a investigar se alguns dos usos atribuídos tradicionalmente à maca poderiam ser demonstrados experimentalmente. Existem ensaios clínicos sobre desejo sexual, função sexual, parâmetros seminais, sintomas da menopausa e desempenho físico, mas o conjunto das evidências é desigual, e muitas afirmações populares continuam apoiadas principalmente em estudos pequenos, pesquisas experimentais ou marketing.
É justamente essa diferença entre tradição, plausibilidade biológica e comprovação clínica que torna a maca uma planta tão interessante para investigar.
Resumo rápido da maca-peruana
| Nome científico | Lepidium meyenii Walp. |
| Família | Brassicaceae |
| Outro nome científico encontrado | Lepidium peruvianum G.Chacón — atualmente tratado pelo Kew como sinônimo |
| Parte consumida | Principalmente o órgão subterrâneo engrossado, frequentemente chamado de “raiz”, formado pelo hipocótilo e região radicular |
| Compostos de interesse | Macamidas, macaenos, glucosinolatos, alcaloides, polifenóis e esteróis |
| Cores mais conhecidas | Amarela, vermelha e preta — fenótipos da mesma espécie, não três espécies diferentes |
| Evidência clínica | Existem estudos humanos, principalmente em saúde sexual e reprodutiva, mas vários são pequenos e ainda não permitem confirmar muitas alegações populares |
Lepidium meyenii ou Lepidium peruvianum: qual nome usar?
A nomenclatura da maca é um dos primeiros pontos que podem confundir quem começa a pesquisar a planta.
O nome aceito atualmente pelo Plants of the World Online, do Royal Botanic Gardens, Kew, é Lepidium meyenii Walp., publicado originalmente em 1843. A espécie pertence à família Brassicaceae, a mesma família botânica de plantas como couve, mostarda, rúcula e brócolis.
Em 1990, foi publicado o nome Lepidium peruvianum G.Chacón. Esse nome ainda aparece em artigos científicos, livros e produtos comerciais, mas o Kew atualmente o considera sinônimo de Lepidium meyenii, não uma espécie separada.
Há ainda outros nomes históricos hoje incluídos na sinonímia da espécie, como Lepidium gelidum, Lepidium affine e Lepidium weddellii.
Por isso, no Benverde utilizamos:
Nome principal: Lepidium meyenii Walp.
Quando encontrarmos Lepidium peruvianum em algum estudo, isso não significa necessariamente que o artigo esteja tratando de outra maca: é preciso observar a classificação botânica utilizada pelos autores.
Maca-peruana não é ginseng
Outro nome bastante usado comercialmente é “ginseng peruano”.
Botanicamente, porém, a maca não é um ginseng.
Os verdadeiros ginsengs pertencem principalmente ao gênero Panax, da família Araliaceae. A maca pertence ao gênero Lepidium e à família Brassicaceae.
Portanto, “ginseng peruano” é melhor entendido como uma denominação comercial ou comparativa, utilizada para sugerir características de tônico ou revitalizante, e não como uma relação botânica.
Esse cuidado é importante porque nomes populares podem criar uma expectativa de que plantas diferentes possuam os mesmos compostos ou os mesmos efeitos.
Uma planta moldada pelas grandes altitudes dos Andes

A distribuição nativa reconhecida atualmente pelo Kew se estende do sul do Peru ao noroeste da Argentina, incluindo Bolívia e norte do Chile. A espécie está associada a ambientes montanos da região andina.
O cultivo tradicional da maca peruana tornou-se particularmente associado às regiões elevadas dos Andes centrais do Peru.
Diversos trabalhos descrevem cultivos em torno de 3.500 a mais de 4.000 metros de altitude, e estudos clássicos realizados no Peru frequentemente citam plantações entre aproximadamente 4.000 e 4.500 metros.
São ambientes marcados por: frio intenso, grande variação de temperatura entre dia e noite, ventos fortes, elevada radiação solar e solos onde poucas culturas agrícolas conseguem prosperar.
Essa adaptação extrema ajudou a transformar a maca em uma cultura de grande importância alimentar nas comunidades andinas.
Como é a planta da maca-peruana?
Vista apenas como pó dentro de um pacote, é difícil imaginar a aparência da planta que lhe deu origem.
Lepidium meyenii forma uma roseta baixa de folhas, característica útil em ambientes expostos ao vento. Pequenas flores típicas de Brassicaceae aparecem em hastes florais, posteriormente formando pequenos frutos contendo sementes.
A estrutura mais valorizada, porém, encontra-se junto ao solo.
Popularmente chamada de “raiz de maca”, ela corresponde, botanicamente, a uma região engrossada que envolve principalmente o hipocótilo e parte da raiz.
Por isso, “raiz de maca” é uma expressão perfeitamente compreensível no uso comercial e culinário, mas hipocótilo engrossado é um termo mais preciso quando estamos falando de botânica.
Muito além de uma “raiz energética”: o que existe dentro da maca?
A maca é, antes de tudo, um alimento rico em carboidratos, e o amido representa uma parcela importante de sua matéria seca.
Também são encontrados proteínas, fibras, aminoácidos, ácidos graxos e minerais. Mas grande parte do interesse científico atual está voltada para seus compostos secundários.
Revisões químicas identificam diferentes classes, entre elas:
macamidas e macaenos, frequentemente utilizados como compostos característicos da maca; glucosinolatos, comuns em integrantes da família Brassicaceae; diferentes alcaloides; polissacarídeos; esteróis; compostos fenólicos; além de outros metabólitos cuja concentração pode variar consideravelmente.
Uma revisão analítica publicada em 2026, que reuniu trabalhos de 2000 a 2025, reforçou justamente essa complexidade química e a importância do controle de qualidade. Os autores destacaram macamidas, macaenos, glucosinolatos e alcaloides entre os grupos de maior interesse analítico.
Macamidas: as “assinaturas” químicas da maca?
As macamidas aparecem com frequência quando se fala na química da maca.
Elas são derivados lipídicos nitrogenados que se tornaram importantes inclusive como marcadores químicos para autenticação e comparação de produtos.
Mas existe uma diferença importante entre identificar um composto e provar que ele é responsável por determinado efeito clínico.
Hoje sabemos que maca contém macamidas. Sabemos também que sua quantidade pode mudar conforme processamento, origem e condições de produção.
O que ainda não podemos afirmar com a mesma segurança é que uma determinada quantidade de macamidas explique, sozinha, os supostos efeitos atribuídos à maca.
Essa é uma distinção fundamental em fitoterapia: presença química não equivale automaticamente a eficácia clínica.
Maca amarela, vermelha e preta são espécies diferentes?

Não.
As macas chamadas de amarela, vermelha e preta representam fenótipos, frequentemente chamados também de ecótipos em parte da literatura, de Lepidium meyenii.
As diferenças visíveis estão principalmente relacionadas à coloração externa do hipocótilo.
E existem muito mais variações do que essas três. Uma revisão publicada em 2024 relata que foram descritos até 17 fenótipos de cor, embora amarelo, vermelho e preto sejam os mais estudados e comercialmente conhecidos.
A cor não é apenas estética: pesquisas químicas encontraram diferenças na concentração de determinados constituintes entre fenótipos. Local de cultivo, clima, solo, colheita, secagem e processamento também podem alterar significativamente o perfil químico.
O problema surge quando diferenças experimentais são transformadas diretamente em regras comerciais.
É relativamente comum encontrar afirmações como:
“maca preta é a maca masculina”, “maca vermelha é para mulheres” ou “maca amarela é para energia”.
Essa divisão é muito mais categórica do que os estudos clínicos permitem sustentar.
Boa parte das diferenças entre cores foi demonstrada em animais ou modelos experimentais. Os estudos em seres humanos que comparam diretamente fenótipos ainda são muito menos numerosos.
Um ensaio com 175 adultos, por exemplo, comparou extratos de maca preta, maca vermelha e placebo durante 12 semanas e observou alguns resultados favoráveis em qualidade de vida e outros parâmetros. Mesmo assim, esse estudo isolado não transforma cada cor em um tratamento destinado a determinado sexo ou condição.
Portanto, no Benverde, evitamos tratar as cores como se fossem medicamentos distintos.
Da maca tradicional ao pó, cápsulas e maca gelatinizada

Nas comunidades andinas, a maca possui uma história essencialmente alimentar. O órgão subterrâneo pode ser seco, cozido e incorporado a diferentes preparações.
No mercado moderno, entretanto, ela aparece em muitas formas:
produto seco, farinha ou pó, pó submetido a processamento térmico, extratos e cápsulas.
Uma expressão que costuma causar dúvida é “maca gelatinizada”.
Apesar do nome, isso não significa que o produto contém gelatina.
“Gelatinização”, nesse contexto, refere-se ao amido. Em determinados processos, a maca é submetida à combinação de umidade, calor e pressão, modificando a estrutura dos grânulos de amido antes da secagem e pulverização.
Em um dos produtos utilizados em estudos clínicos, por exemplo, os hipocótilos secos foram reidratados, processados sob pressão e umidade, secos e posteriormente transformados em pó.
Ou seja:
maca gelatinizada = maca cujo amido passou por processamento, e não maca misturada com gelatina animal.
Isso pode alterar digestibilidade, concentração de componentes e características físicas do produto. Por esse motivo, resultados de um estudo realizado com extrato, pó cru ou maca gelatinizada não devem ser considerados automaticamente equivalentes.
O que a ciência realmente investigou sobre a maca-peruana?
Aqui começamos a separar aquilo que é muito repetido na internet daquilo que realmente foi testado em pessoas.
A maior parte da literatura clínica da maca concentra-se em saúde sexual e reprodutiva, embora também existam estudos sobre sintomas da menopausa, disposição, desempenho físico, humor e outros desfechos.
O número de pesquisas é suficiente para tornar a planta cientificamente interessante.
Mas ainda é pequeno demais para justificar grande parte das promessas comerciais.
Maca aumenta a libido?
Essa talvez seja a alegação mais conhecida.
Um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo publicado em 2002 avaliou homens entre 21 e 56 anos que receberam 1,5 g ou 3 g de maca gelatinizada por dia durante 12 semanas.
Os participantes relataram aumento do desejo sexual a partir de aproximadamente oito semanas.
Curiosamente, porém, os pesquisadores não observaram aumento de testosterona ou estradiol.
Esse resultado é importante por dois motivos.
Primeiro, sugere que uma eventual influência sobre desejo sexual não precisa ocorrer pela simples elevação de testosterona.
Segundo, derruba uma afirmação bastante comum em propagandas:
“Maca aumenta a libido porque aumenta testosterona.”
Esse mecanismo não foi demonstrado nesse estudo.
Uma revisão sistemática publicada em 2010 encontrou apenas quatro ensaios clínicos randomizados adequados sobre função sexual. Alguns apresentaram resultados positivos, mas o número total de participantes e a qualidade das pesquisas foram considerados insuficientes para conclusões firmes.
Uma revisão mais recente publicada em 2026 voltou a encontrar sinais favoráveis principalmente para libido e alguns aspectos da saúde sexual, mas também concluiu que são necessários estudos adicionais.
Portanto:
há sinal clínico interessante, mas ainda não existe base para prometer que maca aumentará a libido de qualquer pessoa.
Estudo citado:
PubMed — estudo clínico sobre maca e desejo sexual em homens, PMID 12472620
Maca aumenta a testosterona?
Até hoje, essa é uma das afirmações comerciais que merece mais cautela.
No ensaio citado anteriormente, os níveis sanguíneos de testosterona não aumentaram com maca.
Outro estudo clínico, realizado com mulheres após a menopausa, também não encontrou alterações significativas em estradiol, FSH, LH ou globulina ligadora de hormônios sexuais após o uso de maca, apesar de ter observado melhora em alguns escores de sintomas psicológicos e função sexual.
Isso não significa que a maca não possa exercer efeitos biológicos por outras vias.
Significa que “a maca aumenta hormônios” não é uma explicação demonstrada pelos principais estudos humanos.
E quanto à função sexual masculina?
Um ensaio clínico randomizado publicado em 2023 avaliou 80 homens com sintomas compatíveis com hipogonadismo de início tardio, mas níveis hormonais preservados.
Os participantes receberam maca gelatinizada ou placebo durante 12 semanas.
Alguns escores relacionados a sintomas masculinos, função erétil e sintomas urinários melhoraram no grupo que recebeu maca. Entretanto, a população estudada era específica, o produto tinha formulação determinada e o ensaio não autoriza transformar maca em tratamento estabelecido para disfunção erétil ou deficiência hormonal.
Esse é um bom exemplo de como devemos ler estudos de plantas medicinais:
resultado promissor não significa indicação universal.
Maca melhora a fertilidade masculina?
Aqui encontramos outra área na qual propaganda e evidência científica frequentemente se misturam.
Estudos preliminares já sugeriram melhora em concentração, motilidade ou volume seminal.
Quando reunimos os trabalhos de forma sistemática, porém, o cenário fica menos simples.
Uma revisão sistemática de 2016 classificou as evidências como sugestivas, mas ressaltou número pequeno de estudos, amostras reduzidas e risco de viés.
Mais importante ainda, uma revisão sistemática e meta-análise de 2022, que incluiu cinco ensaios randomizados, encontrou resultados mistos e não demonstrou aumento estatisticamente significativo da concentração espermática em comparação ao placebo na análise combinada.
Portanto, é inadequado afirmar que:
“maca trata infertilidade masculina”.
Ela continua sendo objeto de pesquisa, mas infertilidade exige investigação das causas e acompanhamento especializado.
PubMed — revisão sistemática e meta-análise sobre maca e qualidade seminal
Maca e menopausa: o que sabemos?
Existem estudos relativamente antigos sugerindo melhora de alguns sintomas relatados durante a peri e pós-menopausa.
Uma revisão sistemática publicada em 2011 encontrou quatro ensaios clínicos randomizados. Todos apresentaram algum resultado favorável nos escores utilizados, mas os autores ressaltaram que a quantidade de estudos, o número de participantes e a qualidade metodológica eram insuficientes para uma conclusão definitiva.
Um pequeno estudo cruzado com 14 mulheres após a menopausa encontrou redução de alguns sintomas psicológicos e de disfunção sexual, mas não encontrou alterações relevantes nos principais hormônios avaliados.
Isso é especialmente importante porque maca é frequentemente divulgada como uma espécie de “regulador hormonal natural”.
A expressão é muito mais ampla do que aquilo que os estudos comprovam.
Maca não deve ser apresentada como substituta de terapia hormonal ou tratamento para sintomas importantes da menopausa.
Maca dá energia e melhora desempenho físico?
A fama de “energizante natural” também precisa de contexto.
Existem muitos estudos experimentais sobre fadiga, metabolismo e desempenho, principalmente em animais.
Em humanos, a base de evidências continua menor.
Um pequeno estudo piloto com apenas oito ciclistas encontrou melhora do tempo de prova em relação ao início do estudo, mas a diferença de desempenho não foi significativa em comparação ao placebo após a intervenção.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no final de 2024 reuniu estudos em animais e humanos e encontrou sinais de potencial benefício sobre diferentes parâmetros de desempenho físico. Entretanto, uma parcela importante dos dados vinha de modelos animais e os estudos humanos apresentavam amostras pequenas e protocolos bastante diferentes.
Em 2025, um ensaio cruzado envolvendo apenas dez jogadores universitários de basquete investigou 2 g/dia de maca durante duas semanas. O tamanho reduzido da amostra novamente impede conclusões fortes.
Assim, “maca aumenta energia” pode fazer sentido como hipótese investigada e como parte de sua tradição de uso, mas não deve ser transformado em promessa garantida de aumento de desempenho.
E memória, ansiedade, próstata, osteoporose e metabolismo?
Essa é uma área em que precisamos ter ainda mais cuidado.
Existem pesquisas experimentais sobre memória, ansiedade, próstata, ossos, glicemia, inflamação, estresse oxidativo e diversos outros desfechos.
Muitas dessas pesquisas apresentam resultados interessantes.
Mas boa parte foi realizada em animais, células ou modelos experimentais específicos.
Isso não significa que sejam estudos inúteis. Pelo contrário: eles ajudam a descobrir mecanismos e a decidir quais hipóteses merecem ensaios clínicos.
O erro acontece quando um resultado em ratos é convertido diretamente em:
“maca previne osteoporose”,
“maca trata próstata”,
“maca melhora memória”
ou
“maca controla diabetes”.
Essas conclusões exigem evidência clínica humana muito mais forte.
O que a ciência mostra — e o que ainda permanece como promessa
| Alegação | O que encontramos | Leitura responsável |
|---|---|---|
| Desejo sexual | Alguns ensaios clínicos encontraram resultados favoráveis. | Evidência promissora, mas ainda baseada em número relativamente pequeno de estudos. |
| Aumento de testosterona | Ensaios humanos não demonstraram aumento consistente de testosterona. | Não deve ser divulgada como estimulante hormonal comprovado. |
| Fertilidade masculina | Estudos apresentam resultados mistos para parâmetros seminais. | Não há base para tratá-la como tratamento comprovado da infertilidade. |
| Menopausa | Pequenos estudos encontraram melhora de alguns sintomas. | Evidência ainda limitada e insuficiente para substituir tratamentos estabelecidos. |
| Energia e desempenho | Há estudos experimentais e pequenos ensaios humanos. | Ainda não é possível garantir melhora do desempenho físico. |
| Maca preta, vermelha ou amarela para funções específicas | Existem diferenças químicas e experimentais entre fenótipos. | A evidência clínica ainda não permite atribuir rigidamente uma finalidade terapêutica a cada cor. |
Maca-peruana é um “adaptógeno”?
O termo adaptógeno tornou-se muito popular na divulgação de plantas e suplementos.
Ele costuma ser usado para substâncias que supostamente aumentariam a capacidade do organismo de responder ao estresse.
A maca frequentemente aparece incluída nessa categoria.
O problema é que “adaptógeno” não equivale a uma indicação clínica específica e comprovada. Não existe um único teste que demonstre que uma planta é “adaptógena” e, a partir daí, permita concluir que ela melhora energia, hormônios, humor, imunidade e desempenho ao mesmo tempo.
Para a maca, existem hipóteses e estudos em diferentes áreas, mas é mais rigoroso avaliar cada desfecho separadamente.
No Benverde, portanto, preferimos descrever os efeitos efetivamente estudados em vez de utilizar “adaptógeno” como uma explicação ampla para tudo.
Segurança: a tradição alimentar ajuda, mas não responde tudo
A maca possui uma longa história de utilização como alimento nos Andes, e ensaios clínicos geralmente relatam boa tolerabilidade nas doses e períodos estudados. Uma revisão de 2024 também descreve, de modo geral, baixa toxicidade nos estudos experimentais e boa tolerância nos estudos humanos disponíveis.
Isso não significa, porém, que qualquer extrato ou dose concentrada seja automaticamente seguro para todas as pessoas.
Os estudos de longo prazo são limitados, e faltam dados robustos para várias populações.
Por prudência, preparações concentradas ou uso regular merecem orientação profissional principalmente durante gravidez e amamentação; em crianças; em pessoas com doenças crônicas; em quem utiliza medicamentos continuamente; em pessoas com doenças da tireoide ou condições hormonais que exigem acompanhamento médico.
A menção à tireoide não significa que a maca esteja comprovadamente causando doença tireoidiana. Ela pertence às Brassicaceae e contém glucosinolatos, mas não dispomos de evidência clínica robusta que permita afirmar que o consumo habitual de maca cause disfunção da tireoide. O cuidado torna-se mais relevante quando falamos de extratos concentrados, uso prolongado ou pessoas com doença preexistente.
Maca-peruana no Brasil: alimento, suplemento ou planta medicinal?
Este é um capítulo particularmente importante, porque a presença de inúmeros potes de maca nas lojas brasileiras pode dar a impressão de que qualquer forma de comercialização esteja automaticamente regularizada.
Não é assim.
A própria Anvisa afirmou em fiscalização realizada em 2023 que a maca-peruana possui histórico de uso em alimentos, mas não estava autorizada como constituinte de suplementos alimentares.
Em novembro de 2025, a Agência voltou a citar explicitamente maca-peruana como ingrediente não permitido em suplementos alimentares ao determinar a apreensão de produtos de determinada marca.
As orientações atualmente publicadas pela Anvisa deixam claro que somente constituintes autorizados podem ser utilizados em suplementos alimentares. Quando um constituinte não está na lista, sua inclusão depende de avaliação e aprovação específicas.
Isso cria uma distinção essencial:
uma planta poder ter histórico de consumo como alimento não significa que possa ser colocada livremente em qualquer cápsula e comercializada como suplemento.
Também não autoriza alegações terapêuticas.
A Anvisa já tomou medidas contra propagandas de maca que prometiam aumento de libido, fertilidade, testosterona, emagrecimento, tratamento da menopausa, melhora de desempenho e outras propriedades não autorizadas.
Portanto, no Brasil, vale verificar como o produto está enquadrado e regularizado, e não apenas se a embalagem traz a palavra “natural”.
Anvisa — ingredientes autorizados em suplementos alimentares
Segurança, cuidados e precauções: quem deve evitar a maca-peruana?
A maca possui uma longa história de consumo alimentar nos Andes e, de modo geral, os estudos clínicos de curta duração relatam boa tolerabilidade.
Em ensaios com adultos utilizando aproximadamente 2 a 3 g por dia durante cerca de 12 semanas, não foram observados eventos adversos graves relacionados de forma consistente ao consumo. Um estudo randomizado com extratos de maca vermelha e preta também não encontrou eventos graves que levassem os participantes a abandonar o tratamento.
Isso, porém, não significa que a maca tenha segurança comprovada para qualquer dose, qualquer extrato e uso indefinido.
A maior parte das pesquisas humanas é relativamente curta, envolve poucos participantes e utiliza produtos específicos. Revisões recentes destacam justamente que ainda faltam dados robustos sobre consumo prolongado, doses elevadas e extratos concentrados.
Quais efeitos adversos já foram relatados?
Nos estudos clínicos, os efeitos relatados foram geralmente leves e transitórios.
Entre eles aparecem:
- desconforto gastrointestinal;
- dor de cabeça;
- irritabilidade;
- alterações do sono;
- aumento da transpiração.
Em um pequeno estudo com maca para disfunção sexual associada a antidepressivos, alguns participantes relataram esses sintomas, embora os pesquisadores não tenham conseguido estabelecer uma relação causal clara em todos os casos.
Também existem relatos isolados na literatura de sangramento vaginal e de um episódio maniforme após uso de maca. Relatos individuais não demonstram que a planta tenha sido necessariamente a causa, mas são relevantes para farmacovigilância e mostram por que não devemos interpretar “natural” como sinônimo de “incapaz de provocar efeitos indesejados”.
Gravidez e amamentação
Não existem dados clínicos adequados que estabeleçam a segurança de preparações concentradas de maca durante a gravidez ou amamentação.
Por isso, o Memorial Sloan Kettering orienta mulheres grávidas ou que estejam amamentando a conversar com o profissional de saúde antes do uso e ressalta que a maca pode não ser segura nessas situações.
Durante gravidez e amamentação, evitar a utilização medicinal ou suplementar de maca sem orientação profissional.
Crianças e adolescentes
Os estudos clínicos disponíveis concentram-se predominantemente em adultos.
Não temos evidência suficiente para estabelecer dose, benefício ou segurança do uso regular de maca como suplemento em crianças.
Portanto, não é apropriado recomendar maca em cápsulas, extratos ou doses suplementares para crianças e adolescentes sem indicação e acompanhamento profissional.
Pessoas com doenças sensíveis a hormônios
Aqui existe muita confusão na internet.
A maca é frequentemente promovida como “reguladora hormonal”, mas, como vimos, alguns dos principais ensaios humanos encontraram possíveis alterações em desejo ou função sexual sem aumento de testosterona ou estradiol.
Mesmo assim, devido à ausência de estudos de segurança suficientemente robustos em pessoas com doenças hormônio-dependentes, é prudente que pacientes com condições como câncer de mama, útero ou outras doenças sensíveis à ação hormonal consultem sua equipe médica antes de utilizar maca concentrada.
O Memorial Sloan Kettering faz justamente essa recomendação para pessoas com cânceres hormônio-sensíveis.
Isso não significa que esteja comprovado que maca estimule esses tumores. Significa que não temos evidência suficiente para garantir segurança nessa população específica.
E quem tem doença da tireoide?
Esse é outro ponto em que vale evitar exageros.
A maca pertence à família Brassicaceae e contém glucosinolatos, compostos também encontrados em outros integrantes dessa família.
Por esse motivo, às vezes aparece na internet a afirmação de que maca “faz mal para a tireoide”.
Até o momento, porém, não existe boa evidência clínica mostrando que o consumo habitual de maca cause disfunção da tireoide em pessoas saudáveis.
Ao mesmo tempo, faltam estudos específicos em pacientes com doenças tireoidianas e em pessoas consumindo doses elevadas ou extratos concentrados.
Assim, quem possui hipotireoidismo, hipertireoidismo, nódulos ou outra condição tireoidiana pode conversar com médico ou nutricionista antes de introduzir o uso regular de suplementos de maca — especialmente em doses elevadas.
É uma precaução por falta de dados, e não uma contraindicação comprovada.
Pessoas com histórico de transtorno bipolar ou episódios de mania
Há na literatura um relato isolado de episódio maniforme associado temporalmente ao consumo de maca.
Um único caso não permite concluir que maca provoque mania, mas, pela incerteza existente, pessoas com transtorno bipolar ou histórico de episódios maníacos devem evitar experimentar extratos concentrados sem discutir antes com o profissional responsável pelo tratamento.
A maca interage com medicamentos?
Essa pergunta ainda não tem uma resposta satisfatória.
As possíveis interações entre maca e medicamentos não foram estudadas sistematicamente. Uma revisão recente destaca essa ausência de dados e recomenda cautela especialmente quando a maca é utilizada juntamente com tratamentos que atuam sobre vias hormonais ou sobre o sistema nervoso central.
Isso não significa que exista uma longa lista de interações comprovadas.
Significa exatamente o contrário: sabemos pouco.
Portanto, quem utiliza medicamentos de uso contínuo, especialmente tratamentos hormonais, medicamentos psiquiátricos ou terapias para condições crônicas, deveria conversar com médico ou farmacêutico antes de iniciar extratos ou suplementos concentrados.
Um detalhe curioso: exames de testosterona
Há ainda uma precaução menos conhecida.
O Memorial Sloan Kettering relata que a maca pode interferir em determinados testes laboratoriais utilizados para medir testosterona. Por isso, quem está utilizando maca e vai realizar exames hormonais deve informar ao médico e ao laboratório.
Isso é diferente de dizer que a maca aumenta a testosterona.
Na verdade, trata-se justamente de uma possível interferência analítica no exame.
Pó, alimento e extrato não são necessariamente equivalentes
Este talvez seja um dos pontos mais importantes para segurança.
A maca consumida tradicionalmente como alimento não é necessariamente equivalente a:
- cápsulas concentradas;
- extratos hidroalcoólicos;
- produtos enriquecidos em macamidas;
- preparações concentradas em glucosinolatos;
- misturas comercializadas como suplementos.
Uma revisão abrangente de 2024 lembra que a avaliação da United States Pharmacopeia não encontrou sinais importantes de risco em produtos tradicionais de maca, mas destacou que ingredientes muito concentrados ou preparados de forma diferente da tradição alimentar podem exigir avaliação específica.
Portanto, não podemos usar séculos de consumo alimentar da maca como prova automática de segurança para qualquer cápsula ou extrato moderno.
Em resumo: quem deve ter mais cautela?
O uso de maca em cápsulas, extratos ou outras formas concentradas merece orientação profissional especialmente durante gravidez e amamentação, na infância, em pessoas com doenças hormônio-sensíveis, doenças da tireoide, histórico de transtorno bipolar ou uso contínuo de medicamentos. A segurança do consumo prolongado e de doses elevadas ainda não está suficientemente estabelecida.
Curiosidade Botânica Histórica: a maca escondida sob outros nomes
A história botânica da maca-peruana não cabe em um único nome.
Lepidium meyenii foi publicado por Wilhelm Gerhard Walpers em 1843. Nas décadas seguintes, botânicos que estudavam a flora das grandes altitudes andinas descreveram plantas relacionadas utilizando outros nomes.

Adaptação editorial inspirada nas representações botânicas associadas a Lepidium gelidum em Chloris Andina, de H. A. Weddell, século XIX.
Lepidium gelidum e a flora das altas Cordilheiras
Em Chloris Andina, obra dedicada à flora das regiões alpinas das Cordilheiras da América do Sul, H. A. Weddell reuniu espécies observadas em ambientes extremos de altitude.
A literatura taxonômica histórica associa Lepidium gelidum à prancha 86, figura C, dessa obra. O nome foi posteriormente empregado em diferentes tratamentos botânicos para plantas das grandes altitudes andinas.
Hoje, o Royal Botanic Gardens, Kew considera Lepidium gelidum um sinônimo de Lepidium meyenii.
Um nome novo em 1990
Mais de um século depois, em 1990, foi publicado o nome Lepidium peruvianum G.Chacón, ainda bastante encontrado em estudos e produtos relacionados à maca.
A classificação taxonômica utilizada atualmente pelo Kew também considera esse nome sinônimo de Lepidium meyenii.
1843 — publicação de Lepidium meyenii • século XIX — registros relacionados a Lepidium gelidum • 1990 — publicação de Lepidium peruvianum • atualmente — Lepidium meyenii é o nome aceito pelo Kew.
Perguntas frequentes sobre maca-peruana
Maca-peruana e Lepidium meyenii são a mesma coisa?
Sim. Lepidium meyenii Walp. é o nome científico aceito atualmente pelo Royal Botanic Gardens, Kew, para a espécie conhecida como maca-peruana.
Lepidium peruvianum é outra espécie de maca?
Atualmente, o Kew trata Lepidium peruvianum G.Chacón como sinônimo de Lepidium meyenii. O nome ainda aparece em parte da literatura científica e em produtos comerciais.
Maca amarela, vermelha e preta são espécies diferentes?
Não. Elas representam diferentes fenótipos de cor da mesma espécie. Existem diferenças químicas e experimentais entre algumas delas, mas a evidência clínica ainda não permite atribuir rigidamente uma função terapêutica específica a cada cor.
A maca-peruana aumenta a testosterona?
Ensaios clínicos em humanos não demonstraram aumento consistente da testosterona com o uso de maca. Alguns estudos encontraram alterações em desejo ou função sexual sem mudanças significativas nos níveis hormonais.
A maca-peruana melhora a fertilidade?
Há pesquisas sobre parâmetros seminais, mas os resultados em humanos são mistos. Revisões sistemáticas ainda consideram a evidência insuficiente para afirmar que maca seja um tratamento comprovado para infertilidade.
O que significa maca gelatinizada?
O termo refere-se ao processamento do amido da maca por umidade, calor e/ou pressão. Não significa que o produto contenha gelatina. Depois desse processamento, a maca é novamente seca e transformada em pó.
Conheça os conteúdos sobre a Maca-peruana
Explore a planta por meio da botânica, das evidências científicas e de seus principais usos.
Da tradição dos Andes à ciência contemporânea
Poucas plantas ilustram tão bem quanto a maca o caminho que um alimento tradicional pode percorrer.
Durante gerações, ela fez parte da alimentação e da cultura agrícola de populações que vivem em algumas das regiões mais altas dos Andes.
Depois veio a ciência.
Pesquisadores identificaram glucosinolatos, macamidas, macaenos, alcaloides, esteróis e outros compostos. Estudos experimentais começaram a mostrar atividades biológicas variadas. Pequenos ensaios clínicos trouxeram sinais interessantes sobre desejo sexual, sintomas relacionados à saúde sexual e alguns outros desfechos.
Então veio o mercado — e, com ele, as simplificações.
A maca passou a ser divulgada como afrodisíaco, estimulante hormonal, tratamento para infertilidade, alimento para atletas, regulador da menopausa, produto para memória e fonte de energia quase universal.
A ciência conta uma história mais bonita justamente porque é menos simples.
Existe algo interessante acontecendo com essa planta? Sim.
Existem evidências humanas que justificam continuar pesquisando? Sem dúvida.
Já sabemos o suficiente para prometer todos os benefícios atribuídos à maca na internet? Não.
Talvez o melhor modo de respeitar uma planta cultivada durante séculos seja justamente não transformá-la em uma lista de milagres.
A maca-peruana continua sendo aquilo que sempre foi antes do marketing moderno: uma extraordinária planta alimentar das grandes altitudes andinas.
E aquilo que a ciência conseguir confirmar além disso deve ser acrescentado com o mesmo cuidado com que seus pequenos hipocótilos são retirados do solo: sem arrancar conclusões antes da hora.
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