A cana-do-brejo (Costus spicatus) é uma das plantas mais emblemáticas da etnobotânica brasileira. Entre folhas em espiral, flores vibrantes e um rizoma aromático, ela carrega consigo séculos de uso tradicional – da purificação do corpo ao equilíbrio do organismo. Hoje, pesquisas científicas começam a confirmar saberes que nossos antepassados já conheciam.
O que é a cana-do-brejo?
A cana-do-brejo (Costus spicatus) é uma planta herbácea da família Costaceae, encontrada em regiões úmidas e sombreadas do Brasil.
Se destaca por:
Crescimento helicoidal típico
Folhas largas, verdes e brilhantes
Inflorescências com flores tubulares vermelhas ou alaranjadas
Rizoma aromático e tradicionalmente utilizado
É uma planta marcante tanto na natureza quanto na cultura popular, presente em sistemas tradicionais de cura, na medicina popular e na sabedoria de comunidades ribeirinhas e rurais.
Benefícios tradicionais da cana-do-brejo
A cana-do-brejo sempre teve papel importante na medicina popular brasileira, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a planta cresce de forma abundante em áreas úmidas.
No uso tradicional, suas folhas e caules são preparados em forma de chá, maceração ou compressas, sendo valorizados por promover alívio de dores, reduzir inchaços e estimular o fluxo urinário. Muitos raizeiros descrevem a planta como “refrescante”, usada para combater o calor interno, problemas urinários e inflamações do dia a dia.
Além disso, culturas tradicionais utilizam a cana-do-brejo como apoio em quadros digestivos leves, auxiliando o corpo a processar alimentos pesados e a eliminar toxinas.
Há também relatos de uso externo, aplicando a planta esmagada ou em cataplasmas sobre áreas inflamadas, hematomas e irritações da pele.
Apesar de ser um conhecimento transmitido oralmente, sua consistência e repetição ao longo de gerações reforçam a importância da planta como uma aliada natural de fácil acesso, especialmente em comunidades rurais.
O que a ciência diz sobre a cana-do-brejo?
Embora a pesquisa científica sobre o Costus spicatus ainda seja limitada, os estudos existentes trazem resultados promissores. Investigações etnobotânicas confirmam o uso popular da planta como diurética, e análises químicas identificaram compostos como saponinas e flavonoides, que podem explicar parte das suas propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes.
Estudos in vitro sugerem que extratos da planta têm potencial para modular processos inflamatórios, reduzindo marcadores associados a dor e inchaço.
Em relação ao equilíbrio metabólico — motivo pelo qual recebeu o nome popular “insulina vegetal” — alguns trabalhos preliminares observaram que a planta pode influenciar vias relacionadas ao metabolismo da glicose.
Estudo: Silva et al., 2013 – Costus spicatus farmacologia
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/
No entanto, os autores são unânimes em afirmar que ainda não há evidências suficientes para considerar a cana-do-brejo um substituto para tratamentos médicos.
O que existe de fato é um apoio tradicional consistente, agora sendo investigado em ambiente laboratorial. Apesar das limitações, a ciência reconhece o valor cultural e terapêutico da planta e reforça a necessidade de novos estudos para compreender melhor seu potencial.
Como preparar o chá de cana-do-brejo
Existem duas formas principais de preparo dentro da tradição fitoterápica popular:
1. Infusão suave (mais leve)
1 colher (sopa) de folhas frescas para 250 ml de água quente
Tampar e deixar 10 minutos
Coar e consumir morno
2. Decocção do rizoma (uso tradicional comum)
1 colher (sopa) de rizoma picado
300 ml de água
Ferver por 5 a 10 minutos
Descansar e coar
Frequência tradicional:
1 a 2 vezes ao dia, por poucos dias.
(observação: não é prescrição, apenas registro etnobotânico)
Segurança, cuidado e precauções
Embora a cana-do-brejo seja considerada uma planta de uso tradicional seguro, é importante utilizá-la com atenção e sempre respeitando a dosagem recomendada.
Por possuir efeito diurético, o consumo excessivo pode aumentar a eliminação de líquidos e minerais, causando leve desidratação ou alteração do equilíbrio eletrolítico – especialmente em dias quentes ou em pessoas que já utilizam diuréticos prescritos.
Gestantes, lactantes e indivíduos com doenças renais devem evitar o uso, pois ainda não existem estudos suficientes que avaliem a segurança nesses grupos.
Também é importante reforçar que a cana-do-brejo não substitui tratamentos médicos, sobretudo em casos de diabetes, infecções urinárias recorrentes ou condições inflamatórias mais severas.
Usuários que fazem uso contínuo de medicamentos devem consultar um profissional de saúde antes de introduzir a planta na rotina, evitando possíveis interações.
Como toda planta medicinal, o ideal é começar com pequenas quantidades e observar a resposta do organismo, interrompendo o uso caso haja qualquer reação inesperada.
Tabela comparativa (resumo rápido)
| Uso Popular | O que a tradição diz | O que a ciência sugere |
|---|---|---|
| Equilíbrio glicêmico | Chamada de “insulina vegetal” | Estudos preliminares indicam ação hipoglicemiante |
| Inflamações | Muito utilizada para inchaços e dores | Ação anti-inflamatória observada em extratos |
| Sistema urinário | Para retenção de líquidos e fluxo urinário | Possível efeito diurético leve |
| Purificação | Atua na “limpeza do organismo” | Compostos antioxidantes e metabólicos |
Curiosidade botânica histórica
A cana-do-brejo aparece em obras botânicas clássicas do século XVIII e XIX, incluindo registros de Nikolaus Joseph von Jacquin, um dos maiores botânicos do período colonial.
https://www.biodiversitylibrary.org/pageimage/287706
Esses registros fazem parte do acervo público da Biodiversity Heritage Library, uma das maiores bibliotecas digitais de botânica do mundo.
FAQ
Usos tradicionais sugerem que sim, mas isso não substitui orientação profissional ou tratamento prescrito.
Não é recomendado uso prolongado. Tradicionalmente é usada por poucos dias.
Não. É contraindicada.
Na tradição, é usada isolada para efeitos mais definidos.
Conclusão
A cana-do-brejo é uma planta de enorme valor cultural, histórico e medicinal dentro da tradição brasileira. Une beleza botânica, saberes ancestrais e estudos modernos que começam a revelar seus potenciais.
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Entre folhas, memórias e raízes, nasce o saber que atravessa gerações.
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