A hortelã (Mentha spp.) acompanha a história humana há séculos, presente em hortas, cozinhas, jardins aromáticos e diferentes tradições de cuidado. O aroma fresco tornou essas plantas familiares em muitas partes do mundo, mas por trás do nome popular “hortelã” existe uma diversidade botânica que merece atenção.
O gênero Mentha pertence à família Lamiaceae e reúne diferentes espécies e híbridos. Entre os mais conhecidos estão Mentha spicata, Mentha × piperita e Mentha arvensis. Embora compartilhem algumas características, elas não possuem exatamente a mesma composição química nem podem ter seus usos medicinais tratados como equivalentes.
Essa diferença é especialmente importante quando analisamos as evidências científicas. Boa parte das monografias farmacêuticas disponíveis se refere especificamente à hortelã-pimenta (Mentha × piperita), enquanto estudos sobre Mentha spicata, mentol isolado, extratos ou óleo essencial investigam preparações diferentes.
No Herbarium Benverde – Coleção Saberes do Brasil, conhecer uma planta também significa aprender a reconhecer essas diferenças.
Entre botânica, tradição e ciência, vamos descobrir por que o universo das hortelãs é muito mais diverso do que uma única folha perfumada pode sugerir.
Resumo rápido: Hortelã (Mentha spp.)
| Gênero | Mentha |
| Família | Lamiaceae |
| Principais representantes | Mentha spicata, Mentha × piperita e Mentha arvensis |
| Hortelã-pimenta | Mentha × piperita |
| Origem da hortelã-pimenta | Híbrido de Mentha aquatica × Mentha spicata |
| Características comuns | Plantas aromáticas, geralmente perenes, com folhas opostas e caules frequentemente quadrangulares |
| Compostos aromáticos | Variam conforme a espécie e podem incluir mentol, mentona, carvona, limoneno e outros terpenos |
| Uso tradicional mais documentado da folha de hortelã-pimenta | Alívio de problemas digestivos leves, como indigestão e flatulência |
| Atenção principal | Espécies, folhas, extratos, mentol e óleos essenciais não são equivalentes |
O que significa Mentha spp.?
Na nomenclatura botânica, a abreviação “spp.” indica que estamos falando de várias espécies de um mesmo gênero.
Assim:
Mentha spp. = diferentes espécies do gênero Mentha.
Isso é diferente de “ssp.”, abreviação tradicionalmente empregada para indicar subespécie.
Essa distinção é particularmente importante com as hortelãs porque diversos vegetais diferentes recebem nomes populares semelhantes.
Uma pessoa pode chamar de “hortelã” uma Mentha spicata, enquanto outra cultiva uma Mentha × piperita. Visualmente e aromaticamente elas podem parecer próximas, mas sua composição não é idêntica.
O que é a hortelã?
As hortelãs são plantas aromáticas da família Lamiaceae, a mesma de alecrim, manjericão, tomilho, lavanda e sálvia.
Muitas espécies são herbáceas e perenes, apresentam rizomas ou caules subterrâneos que favorecem sua propagação e podem formar extensas touceiras quando encontram boas condições de cultivo.
Entre suas características botânicas mais comuns estão:
- folhas dispostas em pares opostos;
- margens frequentemente serrilhadas;
- caules geralmente quadrangulares;
- pequenas glândulas produtoras de substâncias aromáticas;
- flores pequenas, frequentemente rosadas, lilases ou esbranquiçadas;
- crescimento vigoroso por estruturas subterrâneas.
Uma característica fascinante do gênero é sua facilidade de hibridização.
A própria hortelã-pimenta, Mentha × piperita, é um híbrido reconhecido entre Mentha aquatica e Mentha spicata. O Plants of the World Online, do Royal Botanic Gardens, Kew, reconhece essa origem híbrida.
🌿 Como reconhecer uma hortelã na natureza
Algumas características ajudam a reconhecer plantas do gênero Mentha:
- caules frequentemente quadrangulares;
- folhas opostas ao longo do caule;
- margens geralmente serrilhadas;
- aroma facilmente percebido quando a folha é tocada;
- pequenas flores reunidas em inflorescências;
- crescimento vigoroso e tendência à formação de touceiras.
Atenção: identificar a espécie apenas pelo aroma ou pela aparência pode ser difícil. O gênero Mentha possui espécies, híbridos e variedades bastante semelhantes.

Hortelã não é uma planta só
Conhecer algumas das espécies mais comuns ajuda a compreender por que o termo “hortelã” precisa ser usado com cuidado em textos medicinais.
Mentha spicata
Também conhecida internacionalmente como spearmint, Mentha spicata é amplamente utilizada na culinária e em bebidas aromáticas.
O Kew reconhece a espécie e registra uma distribuição nativa que se estende da Europa à China.
Seu perfil aromático costuma diferir daquele da hortelã-pimenta. Estudos fitoquímicos mostram que a carvona aparece frequentemente entre os componentes predominantes de seu óleo essencial, embora existam diferentes quimiotipos e variações de composição.
Mentha × piperita
A hortelã-pimenta é provavelmente a espécie mais importante quando falamos de documentação medicinal europeia.
Botanicamente, é um híbrido de:
Mentha aquatica × Mentha spicata.
Suas folhas possuem monografia própria na Agência Europeia de Medicamentos, assim como seu óleo essencial.
Mentha arvensis
Mentha arvensis também é uma espécie aceita do gênero e integra o grupo de hortelãs utilizadas em diferentes contextos aromáticos e industriais.
O simples fato de existirem espécies diferentes já demonstra por que expressões como “a hortelã contém muito mentol” precisam ser qualificadas.
Por que as hortelãs têm aromas diferentes?
O perfume das hortelãs vem principalmente de substâncias voláteis produzidas em estruturas glandulares da planta.
Entretanto, a composição varia bastante entre espécies, cultivares e condições de cultivo.
Em algumas hortelãs, compostos relacionados ao mentol e à mentona têm grande importância. Em outras, como muitos quimiotipos de Mentha spicata, a carvona é especialmente característica.
Além desses compostos, diferentes espécies podem apresentar limoneno, 1,8-cineol, piperitona e numerosos outros constituintes.
Por isso, o aroma percebido pela pessoa é apenas uma parte de uma composição química muito mais complexa.
Usos tradicionais da hortelã
As hortelãs foram empregadas ao longo do tempo na culinária, em bebidas aromáticas e em diferentes práticas tradicionais de cuidado.
Entre os usos populares mais conhecidos aparecem referências a:
- desconfortos digestivos;
- sensação de gases ou estufamento;
- aromas utilizados em resfriados;
- sensação de frescor;
- aplicações externas;
- práticas culturais relacionadas ao relaxamento e ao bem-estar.
Porém, uma lista histórica não equivale a uma lista de benefícios cientificamente comprovados.
Para compreender o que pode ser afirmado atualmente, é necessário identificar qual hortelã e qual preparação está sendo avaliada.
Digestão: onde temos a documentação mais clara
Para a folha de hortelã-pimenta (Mentha × piperita), a EMA reconhece o uso medicinal tradicional para aliviar problemas relacionados à digestão, especialmente indigestão e flatulência.
“Uso tradicional” possui um significado específico.
A conclusão da agência se baseia no histórico prolongado de utilização. Existem também estudos laboratoriais mostrando efeitos sobre a musculatura intestinal, mas a evidência clínica disponível para a folha não é suficiente para classificar esse uso como eficácia clinicamente estabelecida.
Hortelã e sintomas respiratórios
Uma das associações mais conhecidas da hortelã é a sensação de frescor nas vias respiratórias.
O mentol interage com receptores envolvidos na percepção do frio, produzindo a conhecida sensação refrescante.
Essa percepção, entretanto, não deve ser confundida automaticamente com uma desobstrução física das vias respiratórias.
Também existe documentação europeia de determinados usos do óleo essencial de hortelã-pimenta em medicamentos destinados a sintomas de tosse e resfriado. Mas isso pertence a uma preparação completamente diferente da folha ou da infusão.
Portanto:
mentol isolado ≠ folha de hortelã ≠ chá ≠ óleo essencial.
Hortelã e dor de cabeça
Aqui aparece outro bom exemplo da importância de diferenciar preparações.
A EMA reconhece determinadas formulações contendo óleo de hortelã-pimenta aplicado topicamente para alívio de cefaleias leves, com base em uso medicinal bem estabelecido.
Isso não significa que beber chá de hortelã tenha o mesmo efeito.
Também não autoriza a aplicação doméstica indiscriminada de óleo essencial puro sobre a pele.
O que a evidência demonstra para uma formulação específica não deve ser automaticamente transferido para todas as formas de utilização da planta.
Síndrome do intestino irritável: o que realmente foi estudado?
A síndrome do intestino irritável é outro ponto em que informações sobre hortelã frequentemente se misturam.
Existem estudos clínicos e reconhecimento regulatório envolvendo determinadas preparações orais de óleo de hortelã-pimenta, especialmente formulações farmacêuticas desenvolvidas para liberar o produto no trato gastrointestinal.
A EMA considera o uso dessas preparações para espasmos, flatulência e dor abdominal, especialmente na síndrome do intestino irritável, como uso medicinal bem estabelecido.
Mas isso não significa que:
chá de hortelã trate síndrome do intestino irritável.
A preparação estudada é fundamental para compreender a evidência.
Atividade antioxidante
Espécies de Mentha contêm compostos fenólicos e outras substâncias que apresentam atividade antioxidante em experimentos químicos e laboratoriais.
Pesquisas comparando diferentes espécies mostram inclusive grande variação na concentração de compostos fenólicos entre elas.
Esses estudos ajudam a compreender a química das plantas e podem ser úteis para áreas como alimentos, cosméticos e desenvolvimento farmacêutico.
Entretanto, atividade antioxidante em laboratório não demonstra que beber chá de hortelã previna doenças ou produza um efeito de “desintoxicação” no organismo.
Atividade antimicrobiana
Extratos e óleos essenciais de diferentes espécies de Mentha também são investigados contra bactérias e fungos em condições experimentais.
Esses resultados são interessantes para pesquisa, mas precisam permanecer em seu contexto.
Uma substância que reduz o crescimento de um microrganismo em laboratório não é automaticamente um tratamento seguro e eficaz para uma infecção humana.
Por isso, chá, extrato ou óleo essencial de hortelã não devem substituir medicamentos indicados para infecções.
Folha, chá, extrato, mentol e óleo essencial não são iguais
🌱 Entenda a diferença
Folha: é a parte vegetal utilizada como matéria-prima e também na alimentação.
Infusão: utiliza água para extrair parte dos componentes presentes na folha.
Extrato: pode utilizar diferentes solventes e processos, resultando em composições e concentrações distintas.
Mentol: é uma substância química encontrada em determinadas espécies e preparações; não representa sozinho toda a composição da planta.
Óleo essencial: concentra a fração volátil da planta e possui composição e cuidados diferentes da folha.
Resultados científicos obtidos com uma dessas preparações não devem ser transferidos automaticamente para as demais.

Hortelã: uso popular, evidência e cuidados
| Uso popular | O que a ciência indica | Principal cuidado |
|---|---|---|
| Indigestão e gases | A folha de Mentha × piperita possui uso medicinal tradicional reconhecido pela EMA para indigestão e flatulência. | Não generalizar automaticamente o resultado para todas as espécies de hortelã. |
| Síndrome do intestino irritável | Determinadas formulações medicamentosas de óleo de hortelã-pimenta possuem evidência clínica para sintomas gastrointestinais. | Óleo de hortelã-pimenta em formulação farmacêutica não equivale ao chá. |
| Congestão e resfriados | Mentol e algumas preparações de óleo essencial produzem sensação de frescor e possuem usos tradicionais específicos. | Sensação de respiração livre não significa necessariamente desobstrução objetiva das vias aéreas. |
| Dor de cabeça | Determinadas preparações tópicas de óleo de hortelã-pimenta foram avaliadas para cefaleia leve. | A evidência não se aplica automaticamente ao chá ou à aplicação doméstica de óleo puro. |
| Ação antimicrobiana | Extratos e óleos de diferentes espécies demonstram atividade em estudos laboratoriais. | Não utilizar hortelã como substituta do tratamento de infecções. |
| Ação antioxidante | Compostos fenólicos de diferentes espécies apresentam atividade em estudos químicos e experimentais. | Isso não comprova prevenção ou tratamento de doenças pelo chá. |
Segurança, cuidados e precauções
Não existe uma única orientação de segurança válida para todas as Mentha spp. e todas as suas preparações.
Quando falamos especificamente da folha de hortelã-pimenta (Mentha × piperita), a monografia europeia traz alguns cuidados importantes.
Refluxo e azia
Preparações da folha podem agravar refluxo gastroesofágico e azia em pessoas suscetíveis.
Quem percebe piora desses sintomas após o consumo deve evitar insistir no uso medicinal.
Vesícula e vias biliares
Pessoas com cálculos biliares ou outros problemas das vias biliares devem utilizar preparações de hortelã-pimenta com cautela.
Gestação e amamentação
Para preparações medicinais da folha de Mentha × piperita, a EMA informa que a segurança durante gestação e amamentação não está estabelecida e, na ausência de dados suficientes, o uso medicinal não é recomendado.
Isso é diferente do pequeno uso culinário de folhas como ingrediente alimentar.
Crianças
A segurança também depende da preparação.
A monografia europeia da folha contempla determinadas preparações medicinais para crianças acima de 4 anos, enquanto o óleo essencial possui limites etários e cuidados muito diferentes, dependendo da via e da finalidade.
Portanto, não é adequado afirmar genericamente que “chá fraco é seguro para crianças”.
Interações medicamentosas
Na monografia europeia vigente da folha de hortelã-pimenta, não há interações medicamentosas específicas relatadas.
Isso não significa que qualquer extrato ou produto concentrado possa ser combinado indiscriminadamente com medicamentos, porque preparações diferentes podem ter perfis diferentes.
Hipersensibilidade
Pessoas com alergia conhecida à hortelã ou aos componentes do produto utilizado devem evitar seu uso.
Diante de reação inesperada, o uso deve ser interrompido.
Óleo essencial de hortelã exige outro olhar
O óleo essencial merece ser tratado separadamente justamente porque é uma preparação concentrada.
A EMA possui uma monografia própria para o óleo essencial obtido das partes aéreas floridas frescas de Mentha × piperita. Os usos reconhecidos e as restrições variam conforme via de utilização e formulação.
Isso explica por que um resultado sobre cápsulas farmacêuticas, uma preparação tópica ou um medicamento inalatório não pode ser utilizado para justificar o uso doméstico indiscriminado de óleo essencial.
No Benverde, essa separação será mantida ao longo de toda a trilogia.
Curiosidade Botânica Histórica
Muito antes das análises químicas modernas, as diferenças entre as hortelãs já intrigavam botânicos.Em Medical Botany, obra de William Woodville publicada no final do século XVIII, encontramos uma bela prancha de Mentha viridis, nome historicamente relacionado à planta hoje identificada como Mentha spicata.A gravura foi criada por James Sowerby, responsável pelas ilustrações botânicas coloridas da obra. A coleção digital do College of Physicians of Philadelphia identifica a prancha de Mentha viridis de 1792 como uma gravura colorida à mão de Sowerby, publicada por Woodville.
Curiosamente, o próprio texto histórico de Woodville já revelava uma dificuldade que os botânicos conhecem até hoje: distinguir e organizar adequadamente as diferentes hortelãs.O conhecimento taxonômico avançou enormemente desde então, mas o gênero Mentha continua sendo um belo exemplo de como a natureza nem sempre respeita fronteiras simples.

Herbarium Benverde • Archivum Botanicum
Para conhecer mais sobre a história e representações botânicas da Mentha, acesse o acervo digital do Manchester Museum – Herbarium Collections
Fonte histórica: Manchester Museum • Mint: From the Ancient World to Modern Manchester
Hortelã entre tradição e ciência
Talvez uma das principais lições científicas oferecidas pelas hortelãs seja justamente a importância da identificação.
Duas folhas podem parecer semelhantes, compartilhar um perfume refrescante e pertencer ao mesmo gênero, mas apresentar composições químicas diferentes.
Uma preparação pode possuir documentação tradicional para digestão, enquanto outra é investigada para dor. Um óleo essencial pode ter evidências que uma infusão não possui. Um composto isolado pode produzir determinada resposta sensorial sem representar tudo aquilo que ocorre quando utilizamos a planta inteira.
É por isso que falar simplesmente em “benefícios da hortelã” pode esconder mais do que explicar.
Conhecer a espécie, a parte utilizada e a preparação é uma etapa fundamental para aproximar tradição e ciência com responsabilidade.
Conheça a trilogia da Hortelã
Explore a planta por meio da botânica, dos usos tradicionais e do preparo do chá.
Conclusão
A hortelã (Mentha spp.) não representa uma única planta, mas um gênero botânico diverso, formado por espécies e híbridos que compartilham aromas familiares enquanto guardam diferenças importantes em sua composição e em seus usos.
Entre elas, a hortelã-pimenta (Mentha × piperita) possui documentação medicinal particularmente relevante para determinados desconfortos digestivos. Outras evidências envolvem óleo essencial, mentol, extratos ou espécies diferentes — e reconhecer essas distinções evita que resultados científicos sejam aplicados fora de contexto.
O conhecimento tradicional continua sendo uma parte valiosa da história das hortelãs. A ciência acrescenta outra camada: identifica espécies, compara compostos, testa preparações e, principalmente, revela os limites do que ainda não sabemos.
Talvez seja justamente aí que mora parte do encanto das hortelãs: por trás de um aroma imediatamente reconhecível existe um gênero inteiro de diversidade, história e perguntas que continuam abertas à botânica e à ciência.
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