O chá de hortelã está entre as infusões aromáticas mais conhecidas do cotidiano. Fresco, perfumado e presente em diferentes tradições culinárias, ele costuma ser associado principalmente ao conforto digestivo.
Mas existe uma questão importante antes mesmo de colocar a água para aquecer: qual hortelã está sendo utilizada?
O nome popular “hortelã” pode se referir a diferentes espécies e híbridos do gênero Mentha, como Mentha spicata, Mentha × piperita e Mentha arvensis. Elas compartilham características botânicas e aromas familiares, mas não possuem exatamente a mesma composição nem a mesma documentação medicinal.
Para a folha da hortelã-pimenta (Mentha × piperita), por exemplo, a Agência Europeia de Medicamentos reconhece o uso medicinal tradicional para problemas digestivos como indigestão e flatulência. A EMA ressalta que esse reconhecimento decorre do longo histórico de utilização e não de evidência clínica suficiente para considerar a eficácia definitivamente estabelecida.
Por isso, neste artigo vamos falar sobre o chá de hortelã de maneira ampla, mas, quando apresentarmos uma referência de preparo medicinal, identificaremos claramente a espécie utilizada.
Resumo rápido sobre o chá de hortelã
| Hortelã é uma única espécie? | Não. Diferentes espécies e híbridos pertencem ao gênero Mentha. |
| Espécie medicinal de referência neste preparo | Mentha × piperita L. — hortelã-pimenta. |
| Parte utilizada | Folhas secas. |
| Quantidade de referência para adultos | 1,5 a 3 g de folhas. |
| Água | 100 a 150 mL. |
| Método | Infusão. |
| Uso medicinal tradicional documentado | Alívio de indigestão e flatulência. |
| Mentha spicata | Também é utilizada em bebidas e práticas tradicionais, mas possui documentação medicinal diferente. |
| Refluxo e azia | Preparações de folha de hortelã-pimenta podem piorar os sintomas em pessoas suscetíveis. |
| Óleo essencial | Não equivale ao chá e não deve ser adicionado à infusão. |
O que chamamos de chá de hortelã?
O gênero Mentha pertence à família Lamiaceae, a mesma de plantas como alecrim, manjericão, tomilho e lavanda.
Diferentes hortelãs são utilizadas em bebidas, alimentos e preparações tradicionais. Entre as mais conhecidas estão:
Mentha spicata — frequentemente chamada de hortelã-verde.
Mentha × piperita — hortelã-pimenta, um híbrido de Mentha aquatica com Mentha spicata.
Mentha arvensis — outra espécie aromática importante do gênero.
Quando utilizamos apenas a expressão “chá de hortelã”, podemos estar falando de plantas diferentes.
Isso não é apenas uma questão de nomenclatura. Espécies diferentes também produzem perfis diferentes de compostos aromáticos.
Por isso, uma recomendação medicinal para Mentha × piperita não deve ser automaticamente aplicada a qualquer planta chamada popularmente de hortelã.

Para que serve o chá de hortelã?
O uso tradicional mais bem documentado para uma infusão medicinal de hortelã está relacionado ao sistema digestivo.
A EMA concluiu que medicamentos preparados com folhas de Mentha × piperita podem ser utilizados tradicionalmente para problemas digestivos como:
indigestão e flatulência.
A própria agência explica que existem estudos laboratoriais indicando efeitos sobre a musculatura intestinal, mas que a evidência clínica da folha ainda é insuficiente; por isso, sua classificação permanece no campo do uso tradicional.
Isso significa que o chá não deve ser apresentado como tratamento para gastrite, úlcera, síndrome do intestino irritável, refluxo ou outras doenças gastrointestinais.
Chá de hortelã e digestão
É após refeições que muitas tradições costumam utilizar infusões de hortelã.
E a Mentha spicata?
A Mentha spicata também possui longa história culinária e tradicional e é frequentemente utilizada em infusões.
Porém, ela não deve receber automaticamente todas as indicações farmacêuticas atribuídas à Mentha × piperita.
Essa distinção é especialmente importante porque os perfis aromáticos das duas espécies diferem. Em muitos quimiotipos de Mentha spicata, por exemplo, a carvona tem papel importante, enquanto a hortelã-pimenta é mais conhecida pelo perfil relacionado ao mentol e à mentona.
No post científico da hortelã, aprofundamos justamente essas diferenças entre as espécies.
Aqui, a regra prática é:
Se a finalidade é medicinal, identificar a espécie faz parte do preparo.
Chá de hortelã descongestiona o nariz?
O aroma das hortelãs pode produzir uma sensação marcante de frescor.
Isso, porém, não significa que beber a infusão ou respirar seu vapor necessariamente “abra as vias respiratórias”.
Boa parte das informações sobre mentol, tosse, resfriados e sensação nasal envolve mentol isolado ou determinadas preparações de óleo essencial de hortelã-pimenta, e não o chá das folhas.
A EMA possui uma monografia própria para o óleo essencial de Mentha × piperita, separada daquela da folha justamente porque os usos e os cuidados são diferentes.
Portanto, o chá pode ser apreciado pelo aroma e pela sensação sensorial de frescor, mas não deve ser apresentado como um descongestionante capaz de tratar resfriados ou obstrução nasal.
Chá de hortelã ajuda na dor de cabeça?
Outra associação frequente precisa da mesma distinção.
Determinadas preparações tópicas de óleo de hortelã-pimenta possuem documentação específica relacionada à cefaleia leve.
Isso não demonstra que beber chá de hortelã produza o mesmo efeito.
Também não significa que óleo essencial puro deva ser aplicado diretamente sobre a pele.
Folha, infusão e óleo essencial são preparações diferentes.
Chá de hortelã e síndrome do intestino irritável
Aqui encontramos talvez o exemplo mais importante de toda a trilogia.
Existem evidências envolvendo óleo de hortelã-pimenta em determinadas formulações farmacêuticas orais, inclusive para sintomas como espasmos e dor abdominal.
Mas essas formulações são diferentes do chá.
A EMA mantém documentos distintos para:
- folha de Mentha × piperita;
- óleo essencial de Mentha × piperita.
Por isso, não é correto transformar pesquisas realizadas com cápsulas ou medicamentos contendo óleo de hortelã-pimenta em afirmações como:
“chá de hortelã trata síndrome do intestino irritável”.
Ele não é a preparação estudada nesses casos.
E os estudos antioxidantes?
As folhas de diferentes espécies de Mentha contêm compostos fenólicos e outras substâncias capazes de apresentar atividade antioxidante em ensaios químicos e experimentais.
Esse tipo de resultado é importante para compreender a composição das plantas.
Mas existe uma diferença entre:
atividade antioxidante observada experimentalmente
e
prevenção de doenças em pessoas que bebem o chá.
Uma coisa não demonstra automaticamente a outra.
O chá de hortelã é antimicrobiano?
Óleos essenciais e extratos de diferentes espécies de Mentha apresentam atividade contra determinados microrganismos em estudos laboratoriais.
Isso não transforma o chá em antibiótico, antifúngico ou tratamento para infecções.
O resultado de um experimento realizado com um extrato concentrado ou óleo essencial não pode ser transferido automaticamente para a infusão das folhas.
Qual hortelã usar no preparo medicinal de referência?
Como este artigo fala de chá de hortelã de maneira ampla, precisamos deixar um ponto especialmente claro: a receita abaixo não é uma receita universal para todas as Mentha spp.
Ela utiliza como referência Mentha × piperita, porque existe uma monografia medicinal específica para suas folhas.
A EMA descreve preparações da folha seca de hortelã-pimenta, incluindo a forma de chá medicinal.
No caso da hortelã-pimenta, a documentação europeia relaciona a folha principalmente a quadros leves de indigestão e gases.
Esse uso pode ser compreendido como um auxílio tradicional diante de desconfortos digestivos leves e transitórios.
Entretanto, sintomas persistentes não devem ser simplesmente mascarados com uma infusão.
A EMA orienta procurar avaliação profissional caso os sintomas piorem ou permaneçam por mais de duas semanas durante o uso de medicamentos à base da folha de hortelã-pimenta.
Como preparar o chá de hortelã-pimenta?
Para uma referência medicinal destinada a adultos, utilizaremos a faixa descrita na monografia europeia adotada para Mentha × piperita.
Ingredientes
1,5 a 3 g de folhas secas de Mentha × piperita
100 a 150 mL de água
Preparo
- Coloque as folhas secas em uma xícara ou recipiente adequado.
- Aqueça a água até a fervura.
- Despeje a água sobre as folhas.
- Tampe o recipiente durante a infusão.
- Depois do período de infusão, coe antes do consumo.
O antigo Formulário de Fitoterápicos brasileiro também registrava essa faixa utilizando como referência a EMA de 2020. Desde 1º de julho de 2026, entretanto, a 3ª edição do Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira é a edição oficialmente vigente, substituindo as anteriores.
🌿 Por que usar gramas?
Uma “colher de folhas” pode representar quantidades muito diferentes conforme o tamanho, o corte e a compactação da planta. Em um preparo medicinal de referência, indicar o peso torna a informação mais precisa.
Isso também evita transformar uma medida doméstica vaga em uma dose terapêutica aparentemente padronizada.

Folha fresca ou seca?
Folhas frescas de diferentes hortelãs continuam sendo amplamente utilizadas em bebidas e receitas culinárias.
Entretanto, para a referência medicinal apresentada neste artigo, utilizamos a folha seca de Mentha × piperita.
Não existe uma conversão universal do tipo:
uma quantidade de folha seca = determinada quantidade de folha fresca.
O conteúdo de água e a composição da planta fresca podem variar.
Por isso, quando uma monografia medicinal utiliza droga vegetal seca, o mais correto é manter essa referência em vez de criar uma equivalência doméstica.
Quanto tempo deixar em infusão?
O tempo influencia principalmente a intensidade do aroma e do sabor.
No preparo doméstico, é comum encontrar tempos em torno de alguns minutos, mas deixá-lo por mais tempo não significa necessariamente obter mais benefício terapêutico.
A prioridade deve ser utilizar:
a espécie correta, a quantidade adequada e um preparo coerente com a referência escolhida.
Chá de hortelã não é óleo essencial de hortelã
🌿 Preparações diferentes
Chá de hortelã: é uma infusão preparada com as folhas.
Óleo essencial: concentra a fração volátil e aromática da planta e apresenta composição e riscos diferentes.
O óleo essencial não deve ser adicionado à xícara de chá nem utilizado como substituto das folhas.
Chá de hortelã: tradição, evidência e cuidados
| Questão | O que sabemos | Principal limite ou cuidado |
|---|---|---|
| Digestão | A folha de Mentha × piperita possui uso medicinal tradicional para indigestão e flatulência. | Não deve ser apresentada como tratamento para doenças digestivas. |
| Mentha spicata | Possui longo uso alimentar e tradicional em infusões. | Sua documentação medicinal não é automaticamente a mesma de Mentha × piperita. |
| Congestão | Determinados compostos aromáticos podem produzir sensação de frescor. | Sensação de frescor não significa desobstrução objetiva das vias respiratórias. |
| Dor de cabeça | Há documentação para determinadas formulações tópicas de óleo de hortelã-pimenta. | Essa evidência não pertence ao chá. |
| Síndrome do intestino irritável | Determinadas formulações farmacêuticas contendo óleo de hortelã-pimenta possuem evidência específica. | Cápsulas ou medicamentos contendo óleo não equivalem à infusão. |
| Atividade antioxidante | Compostos de diferentes hortelãs apresentam atividade em estudos químicos e experimentais. | Não comprova prevenção de doenças pelo consumo do chá. |
| Atividade antimicrobiana | Extratos e óleos demonstram resultados contra determinados microrganismos em laboratório. | O chá não deve ser usado para tratar infecções. |
Quem deve ter cuidado com o uso medicinal?
Como existem diferentes hortelãs, as precauções também precisam ser associadas à espécie e à preparação.
No caso da folha de Mentha × piperita, a EMA relata que preparações medicinais podem piorar refluxo gastroesofágico e azia. Pessoas com cálculos biliares ou outros problemas relacionados às vias biliares também devem ter cautela.
Gestação e amamentação
A falta de dados suficientes impede que o uso medicinal da folha de hortelã-pimenta seja tratado como automaticamente seguro durante esses períodos.
Isso não significa que uma pequena quantidade culinária da erva tenha o mesmo contexto de uma preparação medicinal utilizada repetidamente.
Crianças
A EMA contempla determinadas preparações da folha de hortelã-pimenta para crianças acima de 4 anos, mas as doses são próprias para cada faixa etária.
Por isso, a quantidade destinada a adultos não deve ser simplesmente adaptada em casa para crianças.
Uso contínuo
Também não existe uma regra universal dizendo que “qualquer chá de hortelã pode ser tomado todos os dias”.
Espécie, quantidade, finalidade, idade e condições de saúde fazem diferença.
O consumo ocasional como bebida é diferente do uso medicinal frequente.
Quando procurar orientação profissional?
O chá não deve atrasar a avaliação de sintomas importantes.
Dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramento, perda de peso sem explicação, febre ou alterações digestivas recorrentes precisam ser investigados.
Para medicamentos à base da folha de Mentha × piperita, a EMA recomenda buscar orientação quando os sintomas piorarem ou persistirem por mais de duas semanas.
O chá como bebida e como tradição
Nem toda xícara precisa ser transformada em tratamento.
Hortelãs também fazem parte da culinária e da cultura alimentar de diferentes povos. Uma infusão pode simplesmente ser apreciada pelo aroma, pelo sabor e pelo momento que acompanha.
Isso é diferente de utilizá-la com uma finalidade medicinal específica.
No Benverde, essa distinção é importante porque permite preservar a beleza do ritual sem transformar cada experiência com uma planta em uma promessa terapêutica.
Perguntas frequentes sobre chá de hortelã
Para que serve o chá de hortelã?
O uso medicinal tradicional mais bem documentado para a folha de Mentha × piperita está relacionado ao alívio de indigestão e flatulência. Outras hortelãs possuem tradições e evidências diferentes.
Qual hortelã usar para fazer chá?
Diferentes espécies são utilizadas como bebidas. Para a referência medicinal apresentada neste artigo, usamos especificamente folhas secas de Mentha × piperita, porque existe monografia farmacêutica própria para essa espécie.
Chá de hortelã ajuda na digestão?
A folha de hortelã-pimenta possui uso medicinal tradicional reconhecido para indigestão e flatulência. Isso não significa que o chá trate doenças digestivas.
Chá de hortelã descongestiona o nariz?
O aroma pode produzir sensação de frescor, mas não há base suficiente para afirmar que a infusão desobstrua fisicamente as vias respiratórias ou trate resfriados.
Chá de hortelã ajuda na dor de cabeça?
As evidências mais específicas para cefaleia envolvem determinadas preparações tópicas de óleo de hortelã-pimenta. Isso não demonstra o mesmo efeito para o chá.
Chá de hortelã trata síndrome do intestino irritável?
Não é correto afirmar isso. As evidências mais relevantes envolvem determinadas formulações farmacêuticas contendo óleo de hortelã-pimenta, que não são equivalentes à infusão das folhas.
Quem deve ter cuidado com o chá de hortelã-pimenta?
Preparações da folha de Mentha × piperita podem piorar refluxo e azia. Pessoas com cálculos ou outras alterações biliares também precisam de cautela. Uso medicinal durante gestação, amamentação ou infância exige orientação adequada.
Posso colocar óleo essencial de hortelã no chá?
Não. O óleo essencial é uma preparação concentrada, diferente da folha e da infusão, e não deve ser utilizado como substituto da planta na xícara.
Conheça a trilogia da Hortelã
Explore a planta por meio da botânica, dos usos tradicionais e do preparo do chá.
Conclusão
O chá de hortelã parece uma das infusões mais simples de preparar, mas a diversidade do gênero Mentha mostra que até uma xícara familiar pode guardar diferenças importantes.
Para a folha de hortelã-pimenta (Mentha × piperita), o uso medicinal tradicional mais bem documentado está relacionado à indigestão e à flatulência. Outras hortelãs, como Mentha spicata, também fazem parte da alimentação e das tradições de diferentes culturas, mas não devem receber automaticamente as mesmas indicações, doses ou evidências.
Da mesma forma, resultados obtidos com óleo essencial, mentol, extratos ou formulações farmacêuticas não pertencem necessariamente ao chá.
Essa distinção não diminui o valor da hortelã. Pelo contrário: permite conhecê-la com mais profundidade e preservar aquilo que realmente sabemos sobre cada forma de uso.
Entre folhas, aromas e diferentes espécies, preparar um chá de hortelã com responsabilidade começa antes da água quente: começa sabendo qual hortelã está na xícara.
Criadora do Benverde, compartilho conteúdos sobre plantas medicinais, chás e vida natural com base em saberes tradicionais, observação prática e uso consciente. Acredito em um olhar sensível, responsável e conectado à natureza.
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