A camomila (Matricaria chamomilla L.) está entre as plantas medicinais mais reconhecidas pela população. Suas pequenas inflorescências de centro amarelo e flores brancas tornaram-se associadas a momentos de pausa, cuidados digestivos e preparações tradicionais utilizadas há gerações.
Mas a camomila é muito mais interessante do que sua fama de “chá para relaxar” pode sugerir.
Suas flores contêm diferentes grupos de compostos vegetais, entre eles flavonoides, derivados do bisabolol, cumarinas e componentes do óleo essencial. Além disso, chá, extrato fitoterápico e óleo essencial não representam a mesma preparação e não devem ter suas propriedades automaticamente consideradas equivalentes. A documentação brasileira e europeia descreve usos diferentes conforme a forma de preparação e a via de administração.
Há ainda outra particularidade botânica: o nome camomila pode ser utilizado para plantas diferentes. A espécie abordada neste artigo é Matricaria chamomilla, também conhecida cientificamente como Matricaria recutita. Ela não deve ser confundida, por exemplo, com a camomila-romana, Chamaemelum nobile.
Conhecer essas diferenças é o primeiro passo para aproximar tradição, botânica e evidência científica sem simplificar demais uma planta que possui uma história medicinal bastante complexa.
Resumo rápido
| Característica | Informação |
|---|---|
| Nome científico | Matricaria chamomilla L. |
| Sinonímias encontradas | Matricaria recutita L. e Chamomilla recutita |
| Família | Asteraceae |
| Parte medicinal principal | Capítulos florais secos |
| Compostos de interesse | Flavonoides, derivados do bisabolol, camazuleno, cumarinas e outros metabólitos |
| Usos documentados | Variam conforme a preparação; incluem usos tradicionais gastrointestinais, bucais e cutâneos |
| Característica de identificação | Receptáculo floral cônico e oco |
| Principal cuidado | Pessoas alérgicas a plantas da família Asteraceae devem evitar preparações com camomila |
O que é a camomila?

A Matricaria chamomilla L. é uma planta herbácea anual pertencente à família Asteraceae, a mesma grande família botânica que reúne margaridas, girassóis, calêndulas e muitas outras plantas com inflorescências organizadas em capítulos.
A espécie é originária do norte da Europa e ocorre espontaneamente em diferentes áreas europeias, especialmente no centro e no leste do continente. Também é registrada na Ásia ocidental, região mediterrânea do norte da África e outras áreas para onde foi introduzida, além de ser cultivada em diversos países, inclusive no Brasil.
Na fitoterapia, a parte de maior interesse são suas inflorescências, popularmente chamadas simplesmente de flores.
É nelas que se encontram grande parte dos constituintes utilizados na caracterização da droga vegetal e de seus derivados.
Matricaria chamomilla ou Matricaria recutita?
Quem pesquisa camomila em livros, artigos científicos ou documentos oficiais pode encontrar dois nomes:
Matricaria chamomilla L.
e
Matricaria recutita L.
Isso não significa necessariamente que os autores estejam falando de plantas diferentes.
A Farmacopeia Brasileira registra a droga vegetal como Matricaria chamomilla L., incluindo Matricaria recutita L. e Chamomilla recutita entre suas sinonímias. A Agência Europeia de Medicamentos, por sua vez, utiliza Matricaria recutita em sua monografia.
Por isso, é perfeitamente possível encontrar estudos científicos sérios usando nomes diferentes para a mesma espécie botânica.
No Benverde, adotamos Matricaria chamomilla, seguindo a nomenclatura utilizada na monografia farmacopeica brasileira.
Características botânicas da camomila
A camomila possui caule ramificado, folhas finamente divididas e capítulos florais relativamente pequenos.
Aquilo que observamos como uma única “flor de camomila” é, botanicamente, uma inflorescência composta por numerosas flores menores.
Na periferia encontram-se as flores liguladas brancas, responsáveis pelo aspecto semelhante a pétalas.
No centro estão pequenas flores tubulares amarelas.
À medida que a inflorescência amadurece, o centro torna-se mais elevado e assume uma forma cônica.
A descrição farmacopeica apresenta uma característica particularmente importante: o receptáculo da Matricaria chamomilla é cônico e oco.
Esse pequeno detalhe ajuda a reconhecer a planta e diferenciá-la de espécies semelhantes.
Como reconhecer a camomila?
Ao observar uma planta ou flores secas destinadas ao uso medicinal, a aparência geral ajuda, mas não deve ser o único critério de identificação.
Entre as características da Matricaria chamomilla estão:
- capítulos com centro amarelo;
- flores liguladas brancas ao redor;
- folhas profundamente divididas;
- aroma característico;
- receptáculo central elevado, cônico e oco.
Em matéria-prima seca ou triturada, a identificação visual fica muito mais difícil. Por isso, plantas medicinais comercializadas precisam obedecer a critérios de identidade e qualidade estabelecidos por compêndios farmacêuticos. A Farmacopeia Brasileira possui parâmetros específicos para a droga vegetal de camomila.
Camomila-alemã e camomila-romana são a mesma planta?
Não.
A espécie deste artigo, Matricaria chamomilla, também é conhecida internacionalmente como camomila-alemã.
Já a chamada camomila-romana corresponde a Chamaemelum nobile.
Embora ambas pertençam à família Asteraceae e compartilhem nomes populares e alguns usos tradicionais, são espécies botânicas diferentes.
A própria documentação técnica brasileira cita Chamaemelum nobile e Anthemis cotula entre plantas que podem ser confundidas com Matricaria chamomilla quando se avalia a identidade da matéria-prima vegetal.
Isso reforça uma regra que aparece repetidamente quando estudamos plantas medicinais:
o nome popular sozinho nem sempre identifica a espécie.
Composição química da camomila
Os capítulos florais de Matricaria chamomilla possuem composição química complexa.
Entre os grupos de substâncias encontrados em diferentes preparações estão:
- flavonoides;
- terpenoides;
- cumarinas;
- ácidos fenólicos;
- derivados do bisabolol;
- espiroéteres;
- componentes do óleo essencial.
Entre os flavonoides, destacam-se apigenina e derivados da apigenina. A monografia brasileira também descreve luteolina, quercetina e rutina em determinados extratos.
Na fração volátil encontram-se compostos como α-bisabolol e seus óxidos, além de outros sesquiterpenos.
O camazuleno também aparece associado à composição do óleo obtido da camomila, mas sua quantidade varia conforme matéria-prima e método de obtenção.
E a apigenina?
A apigenina se tornou um dos constituintes mais conhecidos da camomila e é frequentemente citada quando se discutem seus possíveis efeitos sobre o sistema nervoso.
Estudos experimentais investigaram sua interação com sistemas relacionados a receptores benzodiazepínicos e GABA. Entretanto, os próprios resultados pré-clínicos não são uniformes: em determinado modelo descrito na monografia brasileira, a apigenina demonstrou interação com esses sistemas, mas não apresentou atividade ansiolítica consistente nos animais avaliados.
Portanto, não é correto resumir a questão simplesmente como:
“a apigenina funciona como um calmante natural”.
O mecanismo é mais complexo, e resultados obtidos com um composto isolado não equivalem automaticamente aos efeitos de uma xícara de chá.
Flor, chá, extrato e óleo essencial de camomila não são iguais
Este é um dos pontos mais importantes para compreender a fitoterapia.
Quando dizemos apenas “camomila”, podemos estar falando de preparações bastante diferentes.
Flor seca
É a droga vegetal, constituída principalmente pelos capítulos florais secos utilizados como matéria-prima.
Infusão ou chá de camomila
A água quente extrai apenas uma parte dos constituintes presentes na planta.
A análise de extratos aquosos de camomila demonstra a presença de ácidos orgânicos, compostos fenólicos, flavonoides e outros componentes solúveis nesse meio.
Extratos fitoterápicos
Podem ser produzidos com água, álcool ou misturas de solventes.
Como diferentes substâncias possuem diferentes solubilidades, a composição de um extrato hidroalcoólico não é igual à de uma infusão. A monografia técnica brasileira mostra claramente diferenças entre os perfis químicos de extratos aquosos, hidroalcoólicos e obtidos por outros processos.
Óleo essencial
É uma preparação altamente concentrada da fração volátil da planta, obtida por processos próprios.
Apresenta proporções diferentes de derivados do bisabolol, espiroéteres, camazuleno e outros componentes.
Por isso:
evidência encontrada para um extrato padronizado não deve ser automaticamente transferida para o chá — e estudos com óleo essencial não demonstram necessariamente efeitos da infusão.

Usos tradicionais da camomila
A camomila possui uma longa tradição de utilização para diferentes finalidades.
No contexto europeu, a EMA reconhece, com base no uso tradicional de longa duração, preparações da flor para:
- sintomas de desconfortos gastrointestinais leves, como distensão e pequenos espasmos;
- sintomas de resfriado, em algumas preparações destinadas à inalação;
- pequenas inflamações e úlceras da boca e da garganta;
- determinados usos externos em irritações e inflamações leves da pele;
- feridas superficiais, conforme a preparação específica.
É importante entender o significado de uso tradicional nesse contexto.
A EMA explica que essas conclusões se baseiam na longa experiência de utilização e na plausibilidade da aplicação, mas reconhece que a evidência proveniente de ensaios clínicos é insuficiente para estabelecer eficácia robusta para essas indicações.
O que dizem as monografias oficiais sobre a camomila?
A comparação entre a documentação brasileira e a europeia é particularmente interessante.
Farmacopeia Brasileira
O Memento Fitoterápico brasileiro reúne informações sobre Matricaria chamomilla provenientes de estudos experimentais, clínicos e do histórico de uso. O documento analisa preparações da camomila relacionadas, entre outros temas, à atividade antiespasmódica, ao sistema nervoso e a usos anti-inflamatórios.
Agência Europeia de Medicamentos
A EMA apresenta um enquadramento mais centrado no uso tradicional da flor, especialmente para desconfortos gastrointestinais leves e determinadas aplicações bucais, respiratórias e cutâneas.
A agência deixa claro que alguns estudos clínicos observaram possíveis benefícios, mas que os dados disponíveis não foram considerados suficientes para transformar esses resultados em comprovação clínica firme.
As duas perspectivas não são necessariamente contraditórias.
Elas mostram como uma mesma planta pode ser avaliada a partir de preparações, níveis de evidência e sistemas regulatórios diferentes.
Camomila, ansiedade e relaxamento: o que sabemos?
Há pesquisas clínicas com extratos padronizados de camomila, incluindo estudos em pessoas com transtorno de ansiedade generalizada.
A monografia técnica brasileira registra resultados indicando possível efeito ansiolítico em determinados ensaios, mas destaca que o número de estudos controlados era pequeno e que havia limitações metodológicas na literatura disponível.
Portanto, é importante evitar uma generalização frequente:
um ensaio realizado com extrato farmacêutico padronizado não demonstra que qualquer chá de camomila trate transtornos de ansiedade.
A tradição da bebida como ritual de relaxamento pode coexistir com a investigação farmacológica, mas são níveis diferentes de evidência.
E a camomila para dormir?
A associação entre camomila, descanso e horário noturno está profundamente incorporada ao uso popular da planta.
Entretanto, do ponto de vista científico, relaxamento, sedação leve, qualidade do sono e tratamento da insônia são conceitos diferentes.
Não é adequado transformar a popularidade do chá antes de dormir em afirmação de que a camomila “trata insônia”.
As pesquisas com camomila apresentam diferentes preparações, grupos de participantes e desfechos, e a documentação europeia não estabelece tratamento da insônia entre as indicações tradicionais de sua monografia da flor.
Assim, o posicionamento mais responsável é reconhecer sua tradição ligada ao relaxamento, sem transformar essa tradição em promessa terapêutica.
Camomila e desconfortos digestivos
Aqui existe uma tradição particularmente bem documentada.
A EMA reconhece medicamentos tradicionais produzidos com a flor de camomila para sintomas de pequenos desconfortos gastrointestinais, incluindo distensão abdominal e espasmos leves.
Isso não significa que a camomila deva ser utilizada para tratar qualquer dor abdominal.
Dor intensa, recorrente, acompanhada de vômitos persistentes, sangramento, febre ou outros sinais importantes necessita de avaliação profissional.
O uso tradicional citado pelas monografias refere-se a queixas leves e às preparações especificamente descritas.
Uso tradicional x evidências: resumo
| Uso | Tradição / documentação | Como interpretar a evidência |
|---|---|---|
| Desconfortos digestivos leves | Uso tradicional reconhecido em monografia europeia | Plausível para sintomas leves; não substitui investigação de sintomas persistentes |
| Relaxamento e ansiedade | Longa tradição e estudos com determinados extratos | Resultados promissores em algumas pesquisas, mas não devem ser generalizados para qualquer preparação |
| Sono | Fortemente associado ao uso popular | Não equivale a comprovação de tratamento da insônia |
| Boca e garganta | Uso tradicional reconhecido para algumas preparações | Depende da forma farmacêutica e da indicação específica |
| Pele | Preparações tópicas possuem usos tradicionais documentados | Não extrapolar resultados de extratos ou formulações específicas para qualquer produto caseiro |
Segurança, contraindicações e cuidados
A popularidade da camomila pode transmitir a impressão de que ela é adequada para qualquer pessoa e em qualquer preparação.
Não é bem assim.
Alergia a Asteraceae
Pessoas com alergia conhecida à camomila ou a outras plantas da família Asteraceae devem evitar medicamentos à base de suas flores.
Reações alérgicas já foram descritas e podem, raramente, ser importantes. A EMA registra inclusive relatos de reações após contato de preparações líquidas com mucosas.
Não use chá de camomila nos olhos
Uma prática caseira relativamente conhecida é utilizar saquinhos ou infusão de camomila sobre os olhos.
Isso não deve ser recomendado.
A monografia técnica brasileira reúne relatos de conjuntivite alérgica e outras reações após contato ocular com infusões de camomila.
Gravidez e amamentação
A segurança durante gravidez e lactação varia conforme a preparação, concentração e forma de uso.
Algumas formulações oficiais apresentam restrições específicas, e a própria literatura técnica reconhece limitações nos dados de segurança durante a gestação. Por isso, o uso medicinal regular ou de preparações concentradas não deve ser iniciado por conta própria nesse período.
Crianças
Nem toda preparação com camomila possui a mesma recomendação etária.
A EMA informa que apenas algumas formas são consideradas adequadas para crianças menores de 12 anos; cada medicamento deve ser avaliado conforme sua formulação e bula.
Interações medicamentosas
A documentação técnica brasileira discute uma possível interação com anticoagulantes e antiplaquetários, incluindo um relato envolvendo varfarina, embora o mecanismo e o grau de relevância clínica não estejam completamente estabelecidos.
Por isso, pessoas em tratamento contínuo, especialmente com medicamentos que alteram a coagulação, devem conversar com o profissional responsável antes de utilizar preparações medicinais concentradas de camomila regularmente.
Uma curiosidade botânica: aquilo que chamamos de flor é uma comunidade de flores
A aparência delicada da camomila esconde uma das características mais interessantes da família Asteraceae.
Cada “florzinha” que enxergamos é, na realidade, um capítulo formado por numerosas flores individuais.
As estruturas brancas externas e as pequenas flores amarelas centrais desempenham papéis botânicos diferentes, mas juntas criam a aparência de uma única flor.
É uma estratégia evolutiva tão eficiente que ocorre também em margaridas, girassóis e muitas outras Asteraceae.
Na camomila, essa arquitetura ainda oferece uma pista de identificação particularmente elegante: sob o conjunto das pequenas flores encontra-se o receptáculo cônico e oco característico da espécie.
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Conclusão
A camomila (Matricaria chamomilla) talvez seja um dos melhores exemplos de como uma planta aparentemente simples pode revelar diferentes camadas quando observada com atenção.
Há a camomila da tradição familiar, presente em infusões e rituais de pausa.
Há a espécie botânica, com seu pequeno capítulo floral, suas flores brancas e amarelas e o curioso receptáculo oco que ajuda a identificá-la.
E há também a camomila estudada pela fitoterapia, composta por flavonoides, derivados do bisabolol, cumarinas e numerosas outras moléculas cuja presença muda conforme a preparação utilizada.
A ciência reconhece uma longa história de utilização e encontra resultados interessantes em determinadas áreas, mas também mostra que uso tradicional, atividade observada em laboratório e eficácia clínica não são sinônimos. A EMA, por exemplo, mantém várias aplicações da flor de camomila no campo do uso tradicional justamente porque a literatura clínica ainda apresenta limitações.
Talvez seja esse o olhar mais interessante para uma planta tão familiar: não precisar escolher entre tradição e ciência, mas compreender o que cada uma delas realmente nos conta.
Conhecer a camomila dessa forma transforma uma pequena flor cotidiana em algo muito maior — uma espécie botânica com história, química própria e perguntas que a pesquisa continua ajudando a responder.
Aviso importante
Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui diagnóstico, tratamento ou orientação de profissional de saúde. Plantas medicinais e medicamentos fitoterápicos podem apresentar contraindicações, reações adversas e interações, e diferentes preparações de uma mesma planta não são necessariamente equivalentes.
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