Há chás que chegam como novidade, e há aqueles que permanecem. O chá de camomila pertence a esse segundo grupo: atravessa gerações e se tornou associado aos momentos de pausa, ao conforto digestivo e aos rituais que antecedem o descanso.
A infusão é preparada principalmente com os capítulos florais secos da Matricaria chamomilla L., espécie também encontrada na literatura como Matricaria recutita. A Farmacopeia Brasileira reconhece justamente os capítulos florais secos como a droga vegetal da camomila.
No Brasil, preparações de camomila aparecem em documentação oficial associadas a usos como antiespasmódico, ansiolítico e sedativo leve. Já a Agência Europeia de Medicamentos reconhece usos tradicionais da flor principalmente para pequenos desconfortos gastrointestinais e outras aplicações específicas. Ao mesmo tempo, instituições como o NCCIH alertam que a evidência clínica para condições como ansiedade e insônia ainda apresenta limitações importantes.
Isso nos permite olhar para a xícara com duas lentes ao mesmo tempo: respeitar sua longa tradição sem transformar o chá de camomila em promessa de tratamento.
Resumo rápido
| Informação | Resposta rápida |
|---|---|
| Planta | Matricaria chamomilla L. |
| Parte utilizada | Capítulos florais secos |
| Tipo de preparo | Infusão |
| Referência de preparo | 1 a 3 g de inflorescências secas para 150 mL de água |
| Tempo de infusão | 5 a 10 minutos |
| Usos tradicionais | Desconfortos digestivos leves e usos relacionados ao relaxamento, conforme a preparação e a documentação consultada |
| Ajuda a dormir? | Possui tradição de uso nesse contexto, mas a evidência clínica para tratar insônia não é conclusiva |
| Principal cuidado | Alergia à camomila ou a outras plantas da família Asteraceae |
O que é o chá de camomila?
O chá de camomila é, tecnicamente, uma infusão dos capítulos florais da planta em água quente.
A espécie deste artigo é a Matricaria chamomilla, também chamada de camomila-alemã. Os nomes Matricaria recutita e Chamomilla recutita também aparecem como sinonímias na documentação botânica e farmacopeica.
As pequenas estruturas semelhantes a margaridas apresentam flores brancas na periferia e numerosas flores tubulares amarelas no centro.
Quando colocadas em contato com água quente, parte dos componentes solúveis da matéria vegetal passa para a bebida.
Mas existe um ponto importante:
uma infusão de camomila não é quimicamente igual a um extrato concentrado, tintura ou óleo essencial.
Essa diferença será particularmente importante quando falarmos dos estudos científicos.
Para que o chá de camomila é tradicionalmente utilizado?
O uso da camomila varia conforme a preparação e a tradição medicinal consultada.
No Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, preparações de Matricaria chamomilla aparecem relacionadas ao uso interno como antiespasmódico, ansiolítico e sedativo leve.
Na avaliação europeia, a flor de camomila possui uso tradicional reconhecido principalmente para sintomas de pequenos desconfortos gastrointestinais, como distensão e espasmos leves, além de outras indicações específicas relacionadas a boca, garganta e pele.
Esses reconhecimentos não significam que uma xícara de chá trate qualquer problema digestivo, transtorno de ansiedade ou distúrbio do sono.
A preparação, a quantidade, a condição estudada e o nível de evidência fazem diferença.
Chá de camomila e desconfortos digestivos leves
O uso digestivo da camomila está entre os mais bem estabelecidos no campo da tradição medicinal.
A EMA reconhece preparações da flor para o tratamento sintomático tradicional de pequenas queixas gastrointestinais, entre elas distensão abdominal e espasmos leves.
Isso ajuda a explicar por que a infusão se tornou tradicionalmente associada ao período após refeições e a desconfortos digestivos ocasionais.
Mas é importante manter a palavra leves.
Dor abdominal intensa ou persistente, vômitos recorrentes, febre, sangramento ou alteração importante do funcionamento intestinal não devem ser tratados apenas com chá.
Chá de camomila e relaxamento
Talvez nenhuma imagem esteja tão ligada à camomila quanto uma xícara quente no final de um dia movimentado.
A tradição brasileira também reconhece determinadas preparações da planta como ansiolíticas e sedativas leves.
Por outro lado, quando passamos da tradição para a pesquisa clínica, precisamos acrescentar uma nuance importante.
O NCCIH informa que alguns estudos preliminares encontraram possíveis efeitos de extratos de camomila em pessoas com transtorno de ansiedade generalizada, mas considera os resultados ainda preliminares e não conclusivos.
E aqui mora uma diferença essencial:
extrato padronizado de camomila não é a mesma coisa que chá de camomila.
Portanto, estudos feitos com cápsulas ou extratos específicos não podem ser utilizados automaticamente para afirmar que uma xícara de infusão trata ansiedade.
O chá pode continuar fazendo parte de um momento escolhido de pausa sem precisar carregar essa promessa.
Chá de camomila ajuda a dormir?
Essa é provavelmente uma das perguntas mais comuns sobre a infusão.
A camomila possui longa associação cultural com o período noturno, e o próprio Formulário de Fitoterápicos brasileiro contempla preparações relacionadas à sedação leve e traz orientações específicas para uso nesse contexto.
Isso, porém, não é o mesmo que demonstrar eficácia no tratamento da insônia.
O NCCIH informa que existe muito pouca pesquisa confiável sobre camomila e insônia. Uma revisão de 2019 identificou apenas um estudo específico sobre o transtorno, sem benefício demonstrado; em sua página sobre sono, a instituição afirma que não há evidência clínica conclusiva de eficácia.
Assim, podemos separar duas ideias:
Uso tradicional: a camomila faz parte de rituais relacionados ao relaxamento e ao período de descanso.
Evidência clínica: não devemos apresentá-la como tratamento comprovado para insônia.
Essa distinção permite manter a tradição sem transformá-la em promessa médica.
Como preparar o chá de camomila
O chá de camomila é preparado por infusão, método adequado para partes vegetais delicadas como as inflorescências.
Como referência de preparação, o Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira contempla a proporção de 1 a 3 g de inflorescências secas para 150 mL de água. Preparações de camomila são mantidas em infusão por cerca de 5 a 10 minutos.
Ingredientes
- 1 a 3 g de capítulos florais secos de camomila
- 150 mL de água
Modo de preparo
- Aqueça a água.
- Coloque as flores secas em uma xícara ou recipiente adequado.
- Despeje a água quente sobre a planta.
- Tampe.
- Deixe em infusão por 5 a 10 minutos.
- Coe antes de beber.
Tampar o recipiente durante a infusão ajuda a limitar a perda de componentes aromáticos voláteis.
A bebida pode ser consumida sem adoçar ou conforme a preferência individual.
Importante: essa proporção é uma referência de preparação da infusão e não uma prescrição individual de frequência ou tratamento.

Flor, infusão, extrato e óleo essencial não são a mesma coisa
Uma das maiores fontes de confusão quando se fala em plantas medicinais aparece nas frases:
“Um estudo mostrou que a camomila…”
ou
“A camomila possui determinado efeito…”
Antes de aceitar a conclusão, precisamos perguntar:
qual camomila foi utilizada e em qual preparação?
A Farmacopeia Brasileira possui documentação específica para os capítulos florais secos, para tintura e também para o óleo volátil da Matricaria chamomilla. Isso por si só já demonstra que estamos falando de produtos tecnicamente diferentes.
Flor seca
É a matéria-prima vegetal utilizada para produzir diferentes preparações.
Infusão
É o que chamamos popularmente de chá de camomila. A água quente extrai parte dos componentes da planta.
Extrato ou tintura
Utiliza métodos e solventes próprios, podendo apresentar composição e concentração diferentes da infusão. A Farmacopeia Brasileira possui inclusive critérios específicos de padronização para a tintura de camomila.
Óleo essencial
Corresponde à fração volátil da planta obtida por método próprio e possui composição bastante diferente daquela encontrada em uma xícara de chá. A Anvisa possui monografia específica para o óleo volátil da camomila.
Por isso:
um resultado observado com extrato não comprova automaticamente o mesmo efeito para a infusão.

O que dizem os estudos sobre o chá de camomila?
A pesquisa científica sobre camomila é extensa, mas isso não significa que todos os seus usos populares estejam clinicamente comprovados.
O NCCIH conclui que os estudos realizados para várias condições ainda não fornecem evidência confiável suficiente para determinar a utilidade clínica da camomila de maneira geral. Outro problema é que alguns trabalhos estudam combinações de várias plantas, dificultando saber qual foi exatamente a contribuição da camomila.
Para ansiedade
Existem resultados preliminares interessantes, principalmente com extratos padronizados, mas eles não são conclusivos e não devem ser transferidos diretamente para o chá.
Para insônia
A evidência clínica permanece insuficiente para considerar a camomila um tratamento comprovado para o transtorno.
Para desconfortos digestivos
Existe longa tradição de utilização e reconhecimento europeu para determinadas preparações destinadas a sintomas gastrointestinais leves, particularmente distensão e pequenos espasmos.
A resposta científica, portanto, não é simplesmente:
“camomila funciona” ou “camomila não funciona”.
A pergunta mais adequada é:
qual preparação, para qual finalidade e sustentada por qual tipo de evidência?
O ritual da xícara também tem seu lugar
Nem tudo o que torna uma xícara especial precisa ser explicado pela farmacologia.
Separar as flores, aquecer a água, esperar alguns minutos, sentir o aroma da infusão e sentar-se para bebê-la lentamente pode simplesmente constituir um momento escolhido de pausa.
No portal Chás que Acolhem, essa dimensão também importa.
O que precisamos evitar é atribuir automaticamente todos os efeitos dessa experiência aos compostos da camomila.
Diminuir estímulos, tornar o ambiente mais tranquilo e estabelecer uma rotina de preparação para o descanso são comportamentos diferentes da ação farmacológica de uma planta.
A xícara pode fazer parte desse momento sem precisar ser apresentada como a causa de tudo o que acontece nele.
E talvez justamente por isso ela conserve tanto significado.
O chá não precisa “resolver” nada. Às vezes, ele apenas acompanha.
Uma xícara antes de dormir: o chá e o ambiente
Para quem gosta de tomar camomila no período noturno, é possível enxergar a bebida como uma parte de um ritual maior.
Diminuir estímulos e reservar algum tempo para atividades mais tranquilas antes de dormir são estratégias comportamentais discutidas no contexto dos cuidados com o sono; isso deve ser separado da alegação de que a camomila, por si só, trata insônia.
Uma luz menos intensa, alguns minutos longe de tarefas e uma xícara preparada sem pressa podem simplesmente marcar a passagem de um momento mais ativo para outro mais silencioso.
Não é necessário transformar esse ritual em obrigação diária.
Uma pausa também pode ser apenas uma pausa.
Segurança e cuidados com o chá de camomila
Em quantidades normalmente encontradas em chás e alimentos, a camomila é considerada provavelmente segura para a maioria das pessoas. Efeitos adversos são incomuns, mas podem ocorrer.
Alergia à camomila e a outras Asteraceae
Reações alérgicas podem acontecer e, raramente, podem ser graves.
O risco é maior em pessoas alérgicas a plantas aparentadas da família Asteraceae, como margaridas, crisântemos e outras espécies relacionadas.
Se surgir reação após o consumo ou contato com uma preparação de camomila, o uso deve ser interrompido.
Medicamentos
Há relatos de interação com varfarina, além de possíveis interações com medicamentos metabolizados pelo fígado e preocupações teóricas envolvendo sedativos. Pessoas que utilizam medicamentos regularmente devem conversar com o profissional responsável antes de adotar preparações medicinais de camomila de forma frequente ou concentrada.
Gravidez e amamentação
Há pouca informação confiável para determinar a segurança do uso medicinal da camomila durante a gestação e a amamentação. Por isso, preparações medicinais ou uso regular não devem ser iniciados por conta própria nesses períodos.
Crianças
O fato de a camomila possuir sabor suave não significa que uma quantidade destinada a adultos possa ser simplesmente oferecida a crianças.
Preparações, quantidades e recomendações variam conforme idade e finalidade, portanto o uso medicinal infantil merece orientação apropriada.
Não utilize chá de camomila nos olhos
Saquinhos e compressas de camomila sobre os olhos aparecem com frequência em receitas caseiras.
Essa prática não deve ser recomendada.
O NCCIH informa que camomila utilizada próxima aos olhos pode provocar irritação, e reações alérgicas também são possíveis.
Quando o chá não é suficiente
O chá de camomila pode integrar momentos de cuidado, mas não deve ser utilizado para retardar uma avaliação necessária.
Procure orientação profissional diante de sintomas como:
- dor persistente ou intensa;
- sintomas digestivos recorrentes;
- ansiedade que interfere de maneira importante na rotina;
- dificuldades frequentes ou prolongadas de sono;
- reações alérgicas;
- qualquer quadro que esteja piorando.
Tratar um problema clínico e tomar uma xícara de chá são coisas diferentes — e uma não precisa excluir a outra.
Perguntas frequentes sobre o chá de camomila
Como referência de preparo, podem ser utilizados de 1 a 3 g de capítulos florais secos para 150 mL de água, preparados por infusão durante cerca de 5 a 10 minutos.
A camomila possui tradição associada ao relaxamento e ao período noturno, mas a evidência clínica para tratamento da insônia ainda é limitada e não conclusiva.
Existem estudos preliminares com extratos padronizados de camomila, mas esses resultados não devem ser automaticamente transferidos para a infusão. O chá não deve ser apresentado como tratamento comprovado para transtornos de ansiedade.
Preparações de camomila possuem longa tradição de uso para pequenos desconfortos gastrointestinais, como distensão e espasmos leves. Sintomas fortes, recorrentes ou persistentes precisam de avaliação.
Pessoas alérgicas à camomila ou a plantas relacionadas da família Asteraceae apresentam maior risco de reação e devem evitar o uso sem orientação adequada.
Não. A infusão, os extratos, as tinturas e o óleo essencial possuem processos de obtenção e perfis químicos diferentes. Resultados obtidos com uma preparação não devem ser automaticamente atribuídos às demais.
Não é recomendado utilizar infusão ou saquinhos de camomila como compressa ocular caseira, pois podem ocorrer irritação e reações alérgicas.
Conheça a trilogia da Camomila
Explore a planta por meio da botânica, dos usos tradicionais e do preparo do chá.
Uma pausa possível
Há algo especialmente simples em preparar camomila.
A água aquece.
As pequenas flores encontram a xícara.
Alguns minutos passam.
E talvez seja justamente essa simplicidade que tenha ajudado o chá de camomila a atravessar tantas gerações.
A ciência nos ensina a não transformar essa tradição em promessas que a evidência ainda não sustenta. Para insônia, por exemplo, os dados clínicos continuam insuficientes; para ansiedade, parte dos resultados mais interessantes vem de extratos específicos, não necessariamente da infusão que preparamos em casa.
Mas isso não torna a xícara menos significativa.
Ela pode fazer parte de um momento de pausa. Pode acompanhar uma conversa, marcar o final de uma tarde ou simplesmente oferecer alguns minutos nos quais não há nada a fazer além de esperar a infusão ficar pronta.
O chá não precisa resolver tudo para ter lugar em um ritual de cuidado.
No Benverde, talvez essa seja uma das formas mais bonitas de olhar para os chás que acolhem: conhecer a planta, respeitar seus limites e ainda deixar espaço para aquilo que uma xícara representa.
Há sempre uma nova planta para conhecer — e, às vezes, alguns minutos de pausa já são suficientes.
Aviso importante
Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui diagnóstico, tratamento ou orientação de profissional de saúde. Plantas medicinais podem provocar reações adversas e interagir com medicamentos; diferentes preparações de uma mesma planta também não são necessariamente equivalentes.
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