Hortelã-Mentha crispiata — ilustração botânica histórica (século XIX)

Hortelã (mentha spp.): botânica, usos tradicionais, preparo e evidências científicas)

As espécies do gênero Mentha amplamente conhecidas como hortelãs — acompanham a história da humanidade desde as antigas tradições mediterrâneas até os quintais brasileiros.

Aromáticas, vibrantes e ricas em compostos bioativos, tornaram-se plantas essenciais nos campos da fitoterapia, culinária e etnobotânica.

Presentes em herbários europeus do século XVIII, na medicina popular indígena e em sistemas tradicionais de cura, as hortelãs atravessam culturas carregando simbolismos de frescor, vitalidade e proteção.

Hoje, tanto a literatura científica quanto o saber ancestral reconhecem seu papel como ervas digestivas, respiratórias e tônicas naturais.

Neste volume do Herbarium Benverde – Coleção Saberes do Brasil, reunimos a história botânica, os usos populares, as evidências científicas, as ilustrações históricas e as principais formas de preparo da hortelã, apresentadas de maneira clara e acessível para estudiosos, amantes de plantas e curiosos da natureza.

Entre folhas perfumadas e manuscritos antigos, convidamos você a conhecer mais profundamente o fascinante mundo das Mentha spp.

Resumo científico da hortelã (Mentha spp.)

O que é a Hortelã (mentha ssp.)?

Hortelã fresca cultivada em solo orgânico

A hortelã é um conjunto de espécies pertencentes ao gênero Mentha, dentro da família Lamiaceae, tradicionalmente reconhecida por seu aroma fresco, folhas opostas e hastes de seção quadrangular,  características marcantes das plantas aromáticas dessa família botânica.

Cultivada há séculos em diferentes regiões do mundo, desde jardins monásticos medievais até hortas domésticas, a hortelã ocupa um lugar especial tanto na medicina tradicional quanto na gastronomia, sempre associada à purificação, ao frescor e ao alívio dos sentidos.

Suas folhas concentram óleos essenciais ricos em mentol e outros compostos bioativos que conferem propriedades digestivas, respiratórias, antimicrobianas e calmantes, justificando seu amplo uso popular em chás, infusões e preparações medicinais.

Dentro do gênero Mentha, encontram-se diversas espécies e híbridos, como Mentha spicata, Mentha × piperita e Mentha arvensis — e todas compartilham o frescor característico que transformou essa planta em um símbolo universal de bem-estar.

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Entre perfumes verdes e tradições antigas, a hortelã segue atravessando séculos como um sopro fresco da natureza no cotidiano humano.

Benefícios tradicionais da hortelã

Ao longo dos séculos, as espécies do gênero Mentha acompanharam diferentes povos em rituais, curas populares e práticas de bem-estar.

Suas folhas perfumadas, facilmente reconhecidas pelo frescor intenso, tornaram-se símbolo de alívio, limpeza e vigor em diversas culturas.

Na medicina tradicional europeia, a hortelã era usada para acalmar o estômago, reduzir gases e suavizar cólicas leve, um hábito que atravessou gerações e permanece vivo até hoje.

No Oriente Médio e no Norte da África, infusões aromáticas de hortelã eram ofertadas como gesto de hospitalidade, sendo apreciadas após refeições para favorecer a digestão.

Entre os povos mediterrâneos, seu aroma refrescante era associado à clareza mental, sendo empregada em banhos, unguentos leves e vapores perfumados usados para aliviar o cansaço e revitalizar o corpo.

Na etnobotânica sul-americana, a hortelã aparece em registros como planta auxiliar para resfriados leves, congestão nasal, dores de cabeça e tensão nervosa, geralmente preparada em infusões simples, muitas vezes combinada com ervas amigas como erva-cidreira ou camomila.

Também se atribui à hortelã um papel tradicional na purificação energética: ramos frescos eram colocados em portas, janelas e ambientes de repouso para “limpar o ar”, um costume simbólico que expressa o profundo valor cultural dessa planta.

Embora amplamente apreciada, os saberes populares sempre recomendam moderação, principalmente em casos de refluxo, sensibilidade digestiva ou uso concomitante de medicamentos. Assim como ocorre com outras espécies da família Lamiaceae, cada organismo responde de forma singular aos compostos aromáticos.

A hortelã, com seu perfume vivo e sua presença humilde, segue sendo um elo entre tradição e modernidade, uma pequena folha que atravessa o tempo levando consigo histórias de cuidado, frescor e equilíbrio.

 

O que a ciência diz sobre a hortelã (mentha spp.)?

Pesquisas científicas ao redor do mundo têm analisado os compostos aromáticos e bioativos presentes nas espécies do gênero Mentha — especialmente Mentha spicata e Mentha × piperita, as duas mais estudadas. Os resultados reforçam muitos dos usos tradicionais atribuídos à planta, ao mesmo tempo em que revelam novas possibilidades terapêuticas.

1. Compostos bioativos com ação farmacológica

Estudos demonstram que a hortelã concentra altos níveis de mentol, carvona, limoneno, flavonoides e ácidos fenólicos, substâncias que apresentam reconhecida atividade:

  • digestiva

  • antiespasmódica

  • analgésica leve

  • antimicrobiana

  • antioxidante

Estes compostos atuam diretamente sobre músculos lisos, vias respiratórias e processos inflamatórios.


2. Evidências sobre distúrbios gastrointestinais

Estudos demonstram que extratos de Mentha spp. ajudam a:

  • reduzir náuseas e desconforto abdominal,

  • melhorar sintomas de má digestão,

  • aliviar gases e cólicas,

  • modular a motilidade do trato gastrointestinal.

Em algumas pesquisas, a ação antiespasmódica é comparável a medicamentos leves usados para dispepsia funcional.


3. Propriedades respiratórias

Ensaios clínicos e revisões sistemáticas apontam que o mentol:

  • facilita a ventilação nasal,

  • melhora a sensação de respiração livre,

  • reduz a percepção de congestão,

  • apresenta efeito calmante sobre vias aéreas irritadas.

Por isso, a hortelã é frequentemente investigada em quadros leves de resfriados e congestão.


4. Potencial antimicrobiano e antiviral

Óleos essenciais de Mentha demonstraram eficácia in vitro contra:

  • bactérias gram-positivas e gram-negativas,

  • fungos oportunistas,

  • alguns vírus respiratórios.

Embora tais resultados não garantam ação terapêutica direta no corpo humano, apontam para o valor da hortelã como planta aromática protetiva.


5. Pesquisas sobre dor e relaxamento

O mentol ativa receptores sensoriais relacionados à sensação de frescor e alívio, o que pode:

  • diminuir dores de cabeça leves,

  • reduzir tensão muscular,

  • promover sensação de relaxamento.

Extratos padronizados têm sido estudados em protocolos complementares para dor tensional.The traditional uses, phytochemistry and pharmacology of spearmint

Segurança, cuidado e precauções

A hortelã é, em geral, uma planta segura e amplamente utilizada em diferentes culturas. Contudo, como toda espécie medicinal, exige atenção ao modo de uso, às doses e ao contexto de saúde de cada pessoa.

A seguir, estão os principais cuidados validados tanto pela tradição quanto por literatura científica.

1. Refluxo gastroesofágico (DRGE) e sensibilidade gástrica

O mentol pode relaxar o esfíncter esofágico inferior, o que pode agravar refluxo, azia e queimação em pessoas sensíveis.
Evitar ou usar com cautela se houver histórico de refluxo frequente.

2. Gestantes e lactantes

  • Chá fraco de hortelã costuma ser considerado seguro em pequenas quantidades, porém não há consenso científico robusto.

  • Preparações fortes, tinturas e óleos essenciais não são recomendados.

  • Em lactantes, especialmente no pós-parto imediato, grandes quantidades podem reduzir a produção de leite.
    → Em ambos os casos, recomenda-se orientação individual de um profissional de saúde.

3. Uso em crianças pequenas

  • Infusões leves podem ser seguras.

  • Óleo essencial jamais deve ser usado em bebês ou crianças pequenas, devido ao risco de broncoespasmo e dificuldades respiratórias (registrado em literatura clínica).

4. Interações com medicamentos

Embora infusões comuns sejam suaves, preparações concentradas podem interagir com:

  • medicamentos para refluxo (omeprazol, pantoprazol, etc.),

  • anticoagulantes,

  • sedativos ou ansiolíticos,

  • remédios metabolizados pelo fígado (citocromo P450).

→ Em caso de tratamentos contínuos, recomenda-se moderação e supervisão profissional.

5. Alergias à família Lamiaceae

Pessoas sensíveis às espécies da família Lamiaceae (como manjericão, alecrim, sálvia e lavanda) podem apresentar:

  • coceira,

  • vermelhidão,

  • dor abdominal,

  • irritação respiratória.
    Em caso de reação, o uso deve ser suspenso.

6. Óleo essencial de hortelã — cuidados especiais

O óleo essencial possui alta concentração de mentol e mentona, e por isso:

  • não deve ser ingerido sem orientação especializada;

  • deve ser sempre diluído antes do uso tópico;

  • pode causar irritação cutânea em peles sensíveis;

  • nunca deve ser aplicado próximo ao nariz de bebês.

7. Doses e tempo de uso

Para a hortelã utilizada como chá:

  • 1 a 2 xícaras por dia é, em geral, considerado seguro para adultos;

  • O uso contínuo por longos períodos não é recomendado sem avaliação individual.
    O ideal é respeitar ciclos naturais: usar, pausar, observar o corpo.

8. Considerações toxicológicas

Estudos indicam que extratos e infusões são de baixa toxicidade quando consumidos moderadamente.
O risco aumenta em:

  • extratos concentrados,

  • altas doses de óleo essencial,

  • uso prolongado sem pausas.

🌱 Resumo Benverde

A hortelã é uma aliada aromática — gentil, refrescante e tradicional.
Mas, como toda planta medicinal, pede escuta ao corpo, atenção ao contexto e respeito às doses.
Quando usada com sabedoria, refresca a mente, acalma os sentidos e segue segura ao lado de quem a utiliza.

Tabela comparativa (resumo rápido)

Uso Popular O que a tradição diz O que a ciência sugere
Digestão e desconfortos abdominais Chá para aliviar gases, inchaço e indigestão Estudos indicam ação antiespasmódica e efeito carminativo
Resfriados e congestão Usada para “abrir o peito” e facilitar a respiração Mentol auxilia na percepção de desobstrução nasal
Dores de cabeça e tensão Infusão e aroma usados para relaxar e acalmar Pesquisas sugerem leve efeito analgésico e relaxante
Bem-estar geral Considerada refrescante e “limpadora da mente” Atividade antioxidante comprovada em extratos

Curiosidade Botânica Histórica

A hortelã acompanha o ser humano há milênios — dos jardins medicinais do Egito às farmacopeias europeias do século XVIII. Suas folhas aromáticas aparecem registradas em manuscritos monásticos, tratados médicos e compêndios botânicos, sempre valorizadas por seu frescor, seu perfume e suas propriedades digestivas.

A seguir, uma belíssima ilustração histórica preservada em acervos digitais, símbolo da longa relação entre a Mentha e a medicina tradicional.

Ilustração botânica histórica de Mentha piperita, publicada em 1792.
W. Woodville • *Medical Botany* (1792)
Herbarium Benverde • Archivum Botanicum

Para conhecer mais sobre a história e representações botânicas da Mentha, acesse o acervo digital do Manchester Museum – Herbarium Collections

Fonte histórica: Manchester Museum • Mint: From the Ancient World to Modern Manchester

Conclusão

A hortelã, representada pelo gênero Mentha spp., é uma planta que atravessa séculos de uso culinário e medicinal, mantendo-se presente tanto na tradição popular quanto na pesquisa científica contemporânea. Suas propriedades aromáticas, digestivas, respiratórias e antioxidantes revelam uma rica interação entre cultura, botânica e ciência.

Para aprofundar seus conhecimentos, explorar ilustrações históricas e acessar uma versão ampliada deste conteúdo:

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Herbarium Benverde – Coleção Saberes do Brasil
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Este conteúdo possui caráter informativo e educacional. Não substitui orientação médica, diagnóstico ou tratamento profissional.

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