O sabugueiro (Sambucus nigra) parece reunir duas plantas em uma só.
Na primavera das regiões temperadas, surgem grandes inflorescências formadas por pequenas flores branco-creme, delicadas e aromáticas. Mais tarde, os ramos carregam cachos de frutos escuros, quase negros, ricos em pigmentos arroxeados.
Flores e frutos fazem parte da longa relação do sabugueiro com a alimentação e a medicina tradicional europeia. Mas, quando observamos a ciência moderna, surge uma distinção fundamental:
a flor, o fruto, a infusão e os extratos padronizados não são preparações equivalentes.
A Agência Europeia de Medicamentos possui uma monografia específica para as flores de Sambucus nigra, reconhecendo seu uso tradicional para o alívio dos sintomas iniciais do resfriado comum. Já os frutos foram avaliados separadamente pela agência e não receberam uma monografia europeia. Paralelamente, alguns dos estudos clínicos mais conhecidos sobre sabugueiro investigaram extratos ou xaropes preparados a partir dos frutos, e não o chá das flores.
Conhecer o sabugueiro, portanto, exige olhar para a espécie como um todo, mas perguntar sempre:
qual parte da planta foi utilizada, em qual preparação e em qual estudo?
🌿 Sabugueiro em poucas palavras
Nome científico: Sambucus nigra L.
Família botânica: Viburnaceae
Forma de vida: arbusto ou pequena árvore
Distribuição nativa: Açores e ampla faixa da Europa até o oeste do Irã
Partes mais utilizadas: flores e frutos maduros
Flores: ricas em flavonoides e ácidos fenólicos; possuem uso medicinal tradicional reconhecido para os sintomas iniciais do resfriado comum
Frutos: ricos em antocianinas; extratos específicos foram avaliados em pequenos ensaios clínicos sobre sintomas respiratórios
Nível da evidência clínica: ainda limitado e heterogêneo, especialmente para os frutos
Atenção: flor, fruto, infusão, xarope e extrato padronizado não devem ser considerados equivalentes.
O que é o Sabugueiro?
O Sambucus nigra é um arbusto ou árvore pertencente à família Viburnaceae segundo a classificação atualmente utilizada pelo Plants of the World Online, do Royal Botanic Gardens, Kew.
Algumas referências botânicas e farmacopéicas mais antigas ainda o apresentam em Adoxaceae ou, em classificações ainda anteriores, Caprifoliaceae. Essa diferença reflete mudanças na classificação botânica ao longo do tempo, e não espécies diferentes.
O sabugueiro apresenta crescimento bastante ramificado e pode alcançar vários metros de altura.
Suas folhas são opostas e compostas, geralmente formadas por cinco a sete folíolos de margens serrilhadas.
As flores são pequenas, branco-creme e reunidas em grandes inflorescências achatadas.
Após a floração desenvolvem-se numerosos frutos globosos, que amadurecem até adquirir coloração roxo-escura ou quase negra.
Embora sejam popularmente chamados de “bagas”, botanicamente esses pequenos frutos são classificados como drupas.
🌿 Como reconhecer o Sabugueiro na natureza?
A identificação deve sempre considerar um conjunto de características, especialmente quando a planta será utilizada para fins alimentares ou medicinais.
Observe principalmente:
- porte arbustivo ou arbóreo e intensa ramificação;
- folhas opostas e compostas;
- geralmente cinco a sete folíolos alongados;
- margens foliares serrilhadas;
- grandes inflorescências achatadas com numerosas flores branco-creme;
- pequenos frutos agrupados em cachos;
- frutos maduros de coloração roxo-escura a negro-arroxeada.
A aparência dos frutos não deve ser utilizada isoladamente para identificação.
Há outras espécies de Sambucus e também plantas de outros gêneros capazes de produzir cachos de frutos escuros.

Origem e distribuição geográfica
O sabugueiro é frequentemente apresentado simplesmente como uma planta europeia.
Sua distribuição nativa é um pouco mais ampla.
O Kew reconhece Sambucus nigra como nativo dos Açores e de extensa região da Europa até o oeste do Irã. A espécie foi posteriormente introduzida em várias outras partes do mundo, inclusive diferentes regiões do Brasil.
Em ambientes temperados, cresce em bordas de bosques, áreas abertas, terrenos perturbados, margens de caminhos e proximidades de habitações.
A longa convivência com populações humanas ajudou a transformar suas flores e frutos em ingredientes culinários e matérias-primas de preparações tradicionais.
🌿 Nem todo Sabugueiro é Sambucus nigra
Este detalhe é especialmente importante no Brasil.
Existe também Sambucus australis, o chamado sabugueiro-do-brasil, espécie aceita pelo Kew e nativa do Sul e Sudeste do Brasil e regiões vizinhas da América do Sul.
A Farmacopeia Brasileira possui historicamente monografias distintas para:
Sambucus nigra — sabugueiro;
Sambucus australis — sabugueiro-do-brasil.
Portanto, o nome popular “sabugueiro” não é suficiente para transportar automaticamente informações de uma espécie para a outra.
Neste artigo, tratamos exclusivamente de Sambucus nigra.
Flores e frutos: duas partes, duas composições
Grande parte da confusão em torno do sabugueiro surge quando estudos realizados com os frutos são utilizados para justificar benefícios do chá das flores, ou vice-versa.
Quimicamente, as duas partes diferem bastante.
🌼 Flores
As flores secas concentram principalmente diferentes flavonoides e compostos fenólicos.
Entre os compostos frequentemente identificados estão:
rutina;
isoquercitrina;
quercetina e seus derivados;
isorhamnetina e derivados;
ácido clorogênico e outros ácidos fenólicos.
Um estudo com diferentes variedades de Sambucus nigra encontrou quantidades importantes de rutina, ácido clorogênico, isoquercitrina e derivados da isorhamnetina nas flores.
No Brasil, a monografia farmacopéica das flores já estabelecia como parâmetros de qualidade teores mínimos de flavonoides totais e rutina, demonstrando a importância desses compostos no controle da matéria-prima medicinal.
🫐 Frutos
Nos frutos maduros, o destaque são as antocianinas, pigmentos responsáveis pela intensa coloração roxo-escura.
Entre as mais abundantes em Sambucus nigra aparecem:
cianidina-3-O-sambubiosídeo;
cianidina-3-O-glicosídeo.
Estudos que compararam diferentes espécies e híbridos de Sambucus confirmaram esses dois pigmentos entre as antocianinas predominantes nos frutos de S. nigra.
Também aparecem outros flavonoides e compostos fenólicos.
Essas diferenças químicas ajudam a explicar por que:
chá de flores ≠ extrato de frutos.

Antioxidantes: o que isso realmente significa?
Tanto flores quanto frutos demonstram atividade antioxidante em diferentes experimentos.
Infusões comerciais de flores e frutos de Sambucus nigra, por exemplo, já foram analisadas quanto ao teor de compostos fenólicos e sua capacidade antioxidante em testes laboratoriais.
Isso é útil para compreender a composição química da planta.
Mas a expressão “antioxidante” costuma ser extrapolada muito além do que esses estudos permitem.
Demonstrar que uma substância neutraliza radicais livres em um ensaio químico não significa que consumir sabugueiro:
previna câncer;
evite doenças cardiovasculares;
retarde o envelhecimento;
“desintoxique” o organismo;
ou proteja genericamente as células de todas as doenças.
Uma propriedade química não é, por si só, uma indicação clínica.
Usos tradicionais do Sabugueiro
O sabugueiro possui uma longa história na fitoterapia europeia.
Mas os usos tradicionais também precisam ser separados pela parte vegetal.
Flores
As flores secas aparecem tradicionalmente em infusões relacionadas aos primeiros sintomas de resfriados.
A Agência Europeia de Medicamentos reconhece justamente essa utilização: preparações de Sambuci flos podem ser empregadas, com base em seu longo histórico de uso, para o alívio dos sintomas iniciais do resfriado comum.
Essa classificação é de uso medicinal tradicional.
Não significa que grandes ensaios clínicos tenham demonstrado a eficácia da flor.
Frutos
Os frutos maduros aparecem há séculos em alimentos e preparações como:
sucos;
geleias;
compotas;
xaropes;
vinhos e outras bebidas.
Mais recentemente, extratos padronizados dos frutos passaram a ser investigados clinicamente, principalmente em sintomas de resfriados e síndromes semelhantes à influenza.
E é justamente aí que precisamos separar tradição de evidência experimental.
O que a ciência diz sobre o Sabugueiro?
A pesquisa científica sobre Sambucus nigra envolve áreas muito diferentes.
Há estudos sobre:
fitoquímica;
atividade antioxidante;
interações com vírus em laboratório;
resposta inflamatória;
alimentos funcionais;
flores utilizadas tradicionalmente;
extratos padronizados dos frutos em ensaios clínicos.
O nível de evidência muda muito entre essas áreas.

🌼 Flores e resfriado: reconhecimento tradicional, não comprovação clínica robusta
A EMA possui uma monografia específica para Sambucus nigra flos.
Sua conclusão é clara:
as preparações das flores podem ser utilizadas para alívio dos sintomas iniciais do resfriado comum, mas exclusivamente dentro da categoria de uso tradicional baseado em longa experiência de utilização. A própria agência afirma que a evidência proveniente de ensaios clínicos é insuficiente para classificar esse uso como bem estabelecido.
Isso significa que a frase:
“Flor de sabugueiro é comprovadamente eficaz contra resfriados”
seria excessiva.
A formulação correta é:
“A flor de sabugueiro possui uso medicinal tradicional reconhecido para aliviar sintomas iniciais do resfriado comum.”
A EMA abriu nova revisão periódica dessa monografia e publicou em março de 2025 um adendo de avaliação, sem identificar novos dados que justificassem mudar substancialmente o enquadramento existente.
🫐 E os estudos clínicos com os frutos?
Aqui encontramos alguns dos trabalhos mais divulgados sobre sabugueiro.
Mas eles estudaram preparações específicas de frutos.
Estudo com 60 adultos e sintomas semelhantes aos da influenza
Um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo publicado em 2004 avaliou 60 pessoas entre 18 e 54 anos que apresentavam sintomas semelhantes aos da influenza havia no máximo 48 horas.
Os participantes receberam um xarope contendo extrato de sabugueiro ou placebo durante cinco dias.
No grupo que recebeu o extrato, os sintomas foram aliviados, em média, aproximadamente quatro dias antes do que no grupo placebo.
Os próprios autores concluíram, porém, que os achados precisavam ser confirmados em estudos maiores.
PubMed — estudo clínico com 60 participantes, PMID 15080016
É um estudo interessante.
Mas 60 participantes não são suficientes para transformar o extrato em tratamento comprovado para influenza.
E xarope de extrato de fruto não é chá de flores.
✈️ Estudo com 312 viajantes
Em 2016, outro ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo acompanhou 312 pessoas que fariam viagens aéreas intercontinentais.
O objetivo era avaliar se um extrato padronizado de sabugueiro poderia reduzir episódios e sintomas de resfriado.
Ocorreram 17 episódios de resfriado no grupo placebo e 12 no grupo que recebeu sabugueiro.
A diferença não foi estatisticamente significativa.
Portanto, o estudo não demonstrou que o sabugueiro evitasse resfriados.
Entre os participantes que adoeceram, porém, o grupo que utilizou o extrato apresentou menor duração total dos episódios e menor carga de sintomas.
PubMed — estudo com 312 viajantes, PMID 27023596
Esse é um ótimo exemplo de como uma manchete pode distorcer um estudo.
O resultado não foi:
“Sabugueiro previne resfriados.”
Foi:
“A incidência não diferiu significativamente, mas os episódios que ocorreram apresentaram menor duração e intensidade no grupo estudado.”
E quando os estudos são reunidos?
Uma meta-análise publicada em 2019 reuniu ensaios randomizados sobre suplementação com sabugueiro e sintomas das vias respiratórias superiores.
A análise encontrou redução dos sintomas associada às preparações estudadas.
Mas havia apenas 180 participantes no total, um número muito pequeno para conclusões definitivas.
PubMed — meta-análise sobre sintomas respiratórios, PMID 30670267
Essa limitação ficou ainda mais clara em uma revisão sistemática publicada em 2021.
Os pesquisadores avaliaram cinco ensaios randomizados relacionados à prevenção ou ao tratamento de doenças respiratórias virais.
A conclusão foi cuidadosa:
o sabugueiro pode reduzir a duração ou a gravidade de resfriados, mas a evidência é incerta;
não ficou demonstrado que reduza de forma confiável o risco de desenvolver resfriado;
e são necessários estudos melhores antes de conclusões clínicas firmes.
PubMed — revisão sistemática de 2021, PMID 33827515
Esse é provavelmente o retrato científico mais equilibrado disponível:
há sinais interessantes, mas ainda não evidência robusta suficiente para tratar o sabugueiro como terapia comprovada contra resfriados ou influenza.
Sabugueiro “fortalece a imunidade”?
Essa expressão merece cautela.
Estudos laboratoriais investigam efeitos de extratos de sabugueiro sobre citocinas, células imunológicas e mecanismos associados a infecções virais.
Mas isso não significa que exista uma medida clínica chamada “aumento da imunidade” que tenha sido demonstrada em pessoas após tomar chá ou xarope de sabugueiro.
A revisão sistemática de 2021 também investigou a preocupação, muito difundida durante a pandemia, de que o sabugueiro pudesse provocar uma suposta “tempestade de citocinas”.
Os pesquisadores não encontraram evidência clínica de resultados inflamatórios prejudiciais desse tipo associados ao sabugueiro. Ao mesmo tempo, isso também não comprova que a planta seja um estimulante imunológico benéfico.
Portanto, no Benverde, evitaremos frases como:
“Sabugueiro fortalece o sistema imunológico.”
Preferimos dizer:
“Compostos e extratos de sabugueiro são estudados por sua interação com mecanismos imunológicos e inflamatórios, mas ainda não existe base clínica suficiente para uma alegação geral de fortalecimento da imunidade.”
E a atividade antiviral?
Há estudos in vitro avaliando extratos e compostos do sabugueiro frente a diferentes vírus.
Esses experimentos são úteis para investigar mecanismos e selecionar substâncias que mereçam novas pesquisas.
Mas um vírus inibido em laboratório não equivale a uma infecção viral curada em uma pessoa.
Uma preparação que demonstra atividade em células cultivadas pode:
não atingir a mesma concentração no organismo;
ser metabolizada rapidamente;
apresentar baixa biodisponibilidade;
ou simplesmente não produzir o mesmo efeito clínico.
Por isso, os estudos laboratoriais ajudam a explicar por que pesquisar, não o que prescrever.
🌿 Flores, frutos, chá e extrato: por que não são equivalentes?
Este é um dos capítulos centrais do Sabugueiro.
Flores secas
São a matéria-prima do Sambuci flos utilizado nas monografias européias e brasileiras.
Na Europa, seu uso tradicional reconhecido está relacionado aos sintomas iniciais do resfriado comum.
Infusão das flores
É uma preparação aquosa.
A água extrai parte dos flavonoides, ácidos fenólicos e outros constituintes presentes nas flores.
A EMA possui referência própria para a preparação da infusão — tema que será tratado detalhadamente no artigo Chá de Sabugueiro.
Frutos maduros
São utilizados como alimento depois de processamento adequado e apresentam composição especialmente rica em antocianinas.
Extratos de frutos
Podem concentrar determinados componentes e utilizar processos industriais específicos.
Foi esse tipo de preparação que apareceu nos principais ensaios clínicos sobre sintomas respiratórios.
Xaropes
Podem conter extratos padronizados e concentrações próprias.
A dose de um xarope utilizado em um estudo não deve ser convertida em quantidade de frutos, colheradas ou chá caseiro.
Assim:
resultado com extrato de fruto ≠ benefício comprovado da infusão da flor.
🌿 Sabugueiro: tradição × evidência científica
| Uso ou preparação | O que a tradição registra | O que a ciência mostra |
|---|---|---|
| Flores e resfriado | Infusões das flores possuem longa tradição durante os primeiros sintomas de resfriados. | A EMA reconhece esse uso como tradicional, baseado em longa experiência, mas sem evidência clínica suficiente para classificá-lo como uso bem estabelecido. |
| Extratos de frutos e sintomas respiratórios | Frutos maduros são utilizados tradicionalmente em xaropes, alimentos e bebidas. | Pequenos ensaios clínicos sugerem possível redução de duração ou intensidade de sintomas, mas revisões consideram a evidência ainda incerta. |
| Prevenção de resfriados | O sabugueiro é tradicionalmente associado aos meses frios. | Não foi demonstrado de forma convincente que preparações de sabugueiro impeçam uma pessoa de desenvolver resfriado. |
| Atividade antioxidante | Frutos escuros são valorizados tradicionalmente como alimento. | Flores e frutos apresentam compostos fenólicos com atividade antioxidante em laboratório; isso não equivale à prevenção comprovada de doenças. |
| “Fortalecer a imunidade” | Preparações de sabugueiro são frequentemente associadas ao período de resfriados e inverno. | Existem pesquisas sobre mecanismos imunológicos, mas não há base suficiente para uma alegação clínica genérica de “aumentar” ou “fortalecer” a imunidade. |
| Frutos como alimento | Frutos maduros são tradicionalmente cozidos ou processados em geleias, xaropes e outras preparações. | Frutos crus ou verdes e partes vegetativas exigem cuidado pela presença de substâncias capazes de liberar cianeto. |
⚠️ Frutos crus, frutos verdes e glicosídeos cianogênicos
Esta é uma das informações de segurança mais importantes sobre o sabugueiro.
O NCCIH, órgão dos National Institutes of Health dos Estados Unidos, alerta que frutos crus ou imaturos, assim como partes da planta como folhas e caules, contêm substâncias capazes de liberar cianeto.
A ingestão inadequada pode provocar:
náuseas;
vômitos;
diarreia intensa;
e, em grandes exposições, problemas mais graves.
O processamento térmico reduz esse risco.
Isso explica por que os frutos de sabugueiro tradicionalmente aparecem cozidos ou processados em geleias, xaropes, compotas e outras receitas.
Não é adequado colher frutos aparentemente maduros e tratá-los automaticamente como qualquer outra fruta de consumo cru.
Segurança das flores
As flores possuem um perfil diferente dos frutos e das partes vegetativas.
Na monografia da EMA:
o uso é contraindicado em pessoas com hipersensibilidade às flores;
o uso medicinal em crianças menores de 12 anos não é recomendado por falta de dados adequados;
a segurança durante gestação e lactação não foi estabelecida, portanto o uso medicinal não é recomendado nesses períodos;
não há interações medicamentosas específicas relatadas na monografia, mas isso não significa que todas as combinações possíveis tenham sido estudadas.
Se durante o uso surgirem falta de ar, febre ou secreção purulenta, a EMA recomenda procurar avaliação profissional
⚠️ Resfriado não é sinônimo de qualquer problema respiratório
A indicação tradicional das flores refere-se aos sintomas iniciais do resfriado comum.
Isso não significa tratamento de:
pneumonia;
influenza confirmada;
COVID-19;
asma;
bronquite crônica;
sinusite bacteriana;
ou outras doenças respiratórias.
A EMA orienta procurar avaliação se os sintomas piorarem ou persistirem por mais de uma semana durante o uso das preparações tradicionais.
E o NCCIH ressalta que não há evidência suficiente para utilizar sabugueiro como prevenção ou tratamento da COVID-19
O Sabugueiro nas referências oficiais
Europa
A EMA mantém uma monografia europeia para as flores de Sambucus nigra.
O uso reconhecido é:
alívio dos sintomas iniciais do resfriado comum, dentro da categoria de uso medicinal tradicional.
Os frutos foram avaliados separadamente, mas o HMPC não adotou uma monografia europeia para Sambuci fructus.
Isso, por si só, mostra por que flores e frutos não podem ser tratados como se possuíssem a mesma documentação regulatória.
Brasil
A Anvisa possui documentação farmacopéica específica para Sabugueiro, flor — Sambucus nigra flos.
Na monografia farmacopéica publicada na 6ª edição, a matéria-prima é constituída pelas flores secas e deve atender a critérios de qualidade, incluindo teores mínimos de flavonoides totais e rutina.
O Brasil atualmente utiliza a Farmacopeia Brasileira, 8ª edição, aprovada em maio de 2026 e vigente desde 1º de julho de 2026, e o Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição, igualmente vigente desde 1º de julho de 2026.
A edição anterior do Formulário já continha preparação de Sambucus nigra à base das flores para auxílio nos sintomas de gripe e resfriado comum, reforçando que, também na referência brasileira, a parte medicinal destacada é a flor, não uma generalização para toda a planta.
É importante lembrar a função de cada documento:
Farmacopeia → identidade e qualidade da matéria-prima.
Formulário → formulações, modo de preparo, indicações e advertências.
Ensaios clínicos → testam uma intervenção específica em seres humanos.
Uma fonte não substitui a outra.
Curiosidade Botânica Histórica
Muito antes da fotografia científica, o conhecimento botânico dependia da observação minuciosa e da precisão dos ilustradores. Folhas, flores, frutos e sementes precisavam ser registrados de maneira suficientemente fiel para permitir o reconhecimento das espécies.
O Sambucus nigra, presente durante séculos na paisagem e na tradição medicinal europeia, aparece em numerosas floras ilustradas.
A prancha abaixo foi publicada em 1891 no Atlas des plantes de France, do botânico francês Amédée Masclef. A composição reúne folhas, flores e frutos, permitindo observar em uma única imagem diferentes fases da espécie.
Mais de um século depois, a prancha permanece como um belo testemunho de uma época em que arte e ciência caminhavam lado a lado para registrar a diversidade das plantas.

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Conclusão
O sabugueiro (Sambucus nigra) é uma planta em que tradição e ciência se encontram, mas não da maneira simples que muitas vezes aparece na internet.
As flores possuem uma longa história medicinal e contam com reconhecimento europeu de uso tradicional para os sintomas iniciais do resfriado comum.
Os frutos seguem outro caminho.
Ricos em antocianinas, são utilizados como alimento depois de adequadamente processados e deram origem a extratos e xaropes estudados em pequenos ensaios clínicos. Alguns desses trabalhos encontraram redução na duração ou intensidade de sintomas respiratórios.
Mas, quando os estudos são analisados em conjunto, ainda encontramos amostras pequenas, preparações diferentes e incerteza suficiente para impedir conclusões definitivas.
Há ainda uma lição de segurança.
Flor não é fruto.
Fruto maduro processado não é fruto verde ou cru.
Extrato padronizado não é xarope artesanal.
E um resultado de laboratório não é automaticamente um benefício clínico.
Talvez seja justamente essa diversidade que torne o Sabugueiro tão interessante.
Uma mesma espécie pode oferecer flores delicadas, frutos intensamente pigmentados, uma longa história cultural e diferentes perguntas para a ciência.
No Benverde, conhecer uma planta significa permitir que todas essas histórias coexistam sem confundi-las.
Preservar a tradição onde ela é tradição.
Reconhecer a evidência onde ela existe.
E deixar claramente em aberto aquilo que a ciência ainda não respondeu.
Herbarium Benverde – Coleção Saberes do Mundo
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