Há plantas que chegam à xícara pelas flores.
A valeriana (Valeriana officinalis) chega pelas raízes.
É nos órgãos subterrâneos, principalmente raízes e rizomas secos, que se encontra a matéria-prima utilizada na infusão tradicionalmente associada ao repouso, à tensão nervosa leve e às dificuldades para dormir.
Mas existe uma distinção importante.
Quando a ciência encontra resultados favoráveis para determinados extratos padronizados de valeriana, isso não significa automaticamente que uma infusão preparada em casa produza o mesmo efeito.
A Agência Europeia de Medicamentos inclui o chá da raiz entre as preparações de uso tradicional para sintomas leves de estresse mental e auxílio ao sono. Já o reconhecimento europeu de “uso bem estabelecido” pertence a um extrato seco etanólico específico, com composição e concentração diferentes da infusão.
Por isso, neste artigo, vamos falar especificamente daquilo que pertence à xícara: a raiz seca, a água, o preparo correto, aquilo que a tradição reconhece e aquilo que a ciência ainda não permite afirmar.
🌿 Resumo rápido: Chá de Valeriana
| Espécie | Valeriana officinalis L. |
|---|---|
| Parte utilizada | Raiz seca e fragmentada |
| Tipo de preparo | Infusão |
| Quantidade de referência | 0,3 a 3 g da raiz seca e fragmentada para 150 mL de água |
| Tempo de infusão | Aproximadamente 10 a 15 minutos |
| Uso tradicional | Sintomas leves de estresse mental e auxílio ao sono |
| Para dormir | Referência de uso: uma dose de 30 a 60 minutos antes de deitar |
| Evidência específica para o chá | Uso tradicional reconhecido; a maior parte da evidência clínica favorável pertence a outras preparações |
| Atenção | Pode causar sonolência e reduzir o estado de alerta |
O que é o Chá de Valeriana?

Apesar do nome popular “chá”, não são as belas flores rosadas que entram na preparação.
A Farmacopeia Brasileira descreve como droga vegetal medicinal os órgãos subterrâneos secos, incluindo raízes, rizomas e estolões. Esses materiais possuem compostos como ácidos valerênicos, constituintes do óleo essencial e outros componentes investigados pela ciência.
A infusão utiliza água quente como solvente.
Por isso, ela extrai apenas parte do conjunto químico presente na raiz e apresenta uma composição diferente daquela encontrada em tinturas ou extratos hidroalcoólicos.
🌿 Para que serve o Chá de Valeriana?
O chá da raiz aparece na monografia europeia dentro de dois usos tradicionais:
alívio de sintomas leves de estresse mental;
auxílio ao sono.
Isso não significa que a infusão esteja comprovada como tratamento de transtornos de ansiedade ou de insônia clínica.
A expressão “uso tradicional” indica que o emprego da preparação é sustentado principalmente por longa experiência medicinal e plausibilidade, mas não pelo mesmo nível de ensaios clínicos exigido para um medicamento de eficácia bem estabelecida.
🌿 Chá de Valeriana ajuda a dormir?
Esse é o uso mais conhecido.
A resposta precisa ser dividida em duas partes.
A valeriana, como espécie medicinal, possui estudos clínicos e preparações com algum suporte para aspectos do sono.
Mas isso não significa que os estudos tenham investigado especificamente a infusão de 0,3 a 3 g da raiz.
Na classificação da EMA, o chá pertence justamente às preparações de uso tradicional, enquanto a evidência considerada suficiente para “uso bem estabelecido” está ligada a um extrato seco etanólico específico.
Portanto, a afirmação mais precisa é:
O chá de valeriana possui uso tradicional reconhecido como auxiliar do sono, mas não deve receber automaticamente a evidência de extratos padronizados.
🌿 E para insônia?
Aqui vale fazer outra distinção importante.
Ter dificuldade ocasional para dormir não é necessariamente o mesmo que apresentar transtorno de insônia.
Uma revisão guarda-chuva publicada em 2024 analisou oito revisões sistemáticas sobre valeriana e sono. Os autores encontraram alguns sinais de melhora subjetiva da qualidade do sono, mas não evidência consistente em medidas quantitativas ou objetivas e concluíram que os dados disponíveis não sustentam a valeriana como tratamento comprovado da insônia clínica.
E esse resultado ainda se refere à valeriana de maneira ampla, envolvendo diferentes preparações — não especificamente ao chá.
PubMed — revisão guarda-chuva de 2024 sobre Valeriana e insônia, PMID 38359657
Assim, no Benverde, evitamos:
“Chá de valeriana trata insônia.”
E preferimos:
“A infusão possui uso tradicional como auxiliar do sono, enquanto a evidência para tratamento da insônia clínica permanece insuficiente.”
🌿 E o Chá de Valeriana para ansiedade?
A valeriana é frequentemente associada a “acalmar os nervos”, ansiedade e relaxamento.
Mas aqui também precisamos respeitar as palavras.
A monografia europeia utiliza a expressão “sintomas leves de estresse mental” para as preparações tradicionais.
Isso não equivale ao tratamento de:
transtorno de ansiedade generalizada;
síndrome do pânico;
depressão;
ou outros transtornos psiquiátricos.
O NCCIH considera que ainda não há evidência suficiente para concluir que a valeriana seja eficaz para ansiedade, estresse ou outras condições desse tipo.
🌿 O que a ciência sabe especificamente sobre o chá?
Menos do que muita gente imagina.
Grande parte dos ensaios clínicos sobre valeriana utiliza:
extratos secos;
extratos hidroalcoólicos;
cápsulas padronizadas;
ou outras formulações industrializadas.
Já a infusão da raiz permanece principalmente sustentada pelo uso tradicional.
Esse ponto é fundamental porque a água quente não extrai exatamente o mesmo perfil químico que uma mistura de água e álcool.
Portanto:
chá ≠ tintura ≠ extrato padronizado.
E o resultado de uma cápsula estudada em um ensaio clínico não pode ser convertido diretamente para uma xícara.
🌿 Chá de Valeriana: tradição × evidência
| Uso procurado | O que a tradição registra | O que sabemos atualmente |
|---|---|---|
| Auxílio ao sono | A infusão da raiz possui longa tradição de uso antes de dormir. | O chá possui reconhecimento de uso tradicional. A evidência clínica mais forte pertence a outras preparações. |
| Insônia clínica | A valeriana é popularmente utilizada quando existe dificuldade para dormir. | Revisões recentes não sustentam eficácia comprovada para tratamento do transtorno de insônia. |
| Estresse mental leve | A raiz é tradicionalmente utilizada em momentos de tensão e inquietação. | A EMA reconhece esse uso tradicional para algumas preparações da raiz, incluindo a infusão. |
| Ansiedade | A planta é frequentemente associada ao relaxamento. | Não existe evidência suficiente para considerar o chá tratamento de transtornos de ansiedade. |
🌿 Como preparar o Chá de Valeriana

Aqui mantemos nossa regra atual do Benverde:
gramas e mililitros — não colheres.
A referência oficial utiliza:
0,3 a 3 g de raiz seca e fragmentada de Valeriana officinalis
150 mL de água
A preparação é feita por infusão, e não simplesmente fervendo a raiz junto com a água.
Preparo
- Pese 0,3 a 3 g da raiz seca e fragmentada.
- Coloque a raiz em uma xícara ou recipiente resistente ao calor.
- Aqueça 150 mL de água até a fervura.
- Despeje a água sobre a raiz.
- Tampe o recipiente.
- Deixe em infusão por aproximadamente 10 a 15 minutos.
- Coe cuidadosamente.
- Utilize a preparação recém-feita.
Para auxiliar o sono, a referência europeia descreve uma dose de meia hora a uma hora antes de deitar, podendo existir uma dose anterior no começo da noite quando necessário. Para sintomas leves de estresse mental, a preparação tradicional pode ser utilizada até três vezes ao dia dentro da referência da monografia.
Essas informações representam referências técnicas de monografias, e não uma prescrição individual.
🌿 Por que a faixa vai de 0,3 a 3 g?
Pode parecer uma diferença muito grande.
Mas monografias fitoterápicas frequentemente trabalham com faixas porque a dose depende da finalidade, da preparação e do contexto de uso.
Isso é justamente mais um motivo para não transformar:
“0,3 a 3 g”
em:
“uma colher de chá”.
Uma colher de raiz seca pode variar enormemente conforme o tamanho dos fragmentos e sua compactação.
A massa em gramas é uma referência muito mais confiável.
🌿 Por que não ferver a raiz junto com a água?
Pesquisas com a Valeriana officinalis investigam seus efeitos no sistema nervoso.
Alguns estudos exploram:
- possíveis efeitos na qualidade do sono
- ação calmante leve
- impacto em quadros de ansiedade
🌿 Valeriana não é necessariamente um efeito “instantâneo”
Esse é talvez um dos pontos mais surpreendentes sobre a planta.
A EMA descreve a valeriana como uma preparação com início gradual de efeito.
A monografia afirma que a raiz não é apropriada como intervenção aguda para tensão nervosa leve ou distúrbios do sono e informa que o efeito ideal pode exigir uso continuado por duas a quatro semanas. Caso os sintomas persistam ou piorem após duas semanas, recomenda-se procurar médico ou farmacêutico.
Isso é muito diferente da ideia popular:
“Vou tomar uma xícara hoje e ela vai me apagar.”
O chá de valeriana não deve ser apresentado como um sedativo instantâneo.
🌿 O ritual pertence à xícara, mas não substitui a evidência
Há algo peculiar no chá de valeriana.
Seu aroma é forte, terroso e muito diferente do perfume floral de uma camomila ou lavanda.
Não é necessariamente uma bebida que conquista pela delicadeza.
Talvez seu ritual esteja justamente em outra coisa:
na água aquecendo;
na raiz seca descansando alguns minutos;
no intervalo criado antes de dormir;
na redução das luzes;
e na decisão de interromper o ritmo do dia.
Esses elementos podem fazer parte de uma rotina de repouso.
Mas o ritual e a experiência sensorial não devem ser confundidos com a comprovação de um tratamento para insônia.
A poesia fica na experiência.
A ciência fica nas afirmações.
🌿 Chá, tintura e extrato não são equivalentes
O chá usa água.
A tintura utiliza água e álcool.
Os extratos padronizados podem utilizar concentrações e processos de extração muito diferentes.
A própria EMA diferencia o chá tradicional do extrato seco etanólico específico que possui reconhecimento de uso bem estabelecido para tensão nervosa leve e distúrbios do sono.
Isso significa que:
um resultado obtido com extrato não deve ser apresentado como resultado do chá.
E uma dose expressa em miligramas de extrato não pode ser convertida simplesmente para gramas de raiz.

Às vezes, o corpo só precisa de silêncio, calor e cuidado.
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✨ Conhecer o guiaQuando evitar ou ter cuidado com o Chá de Valeriana
A segurança aqui se refere especificamente às preparações medicinais da raiz.
Crianças
O uso em menores de 12 anos não é recomendado devido à insuficiência de dados de segurança.
Gestação e amamentação
A segurança não está estabelecida nesses períodos. Na ausência de dados suficientes, o uso medicinal não é recomendado durante gestação e lactação.
Direção e máquinas
Preparações de valeriana podem reduzir a capacidade de dirigir veículos ou operar máquinas.
Isso merece atenção especial quando a bebida é utilizada à noite, antes de alguma atividade que ainda exija alerta.
Efeitos adversos
Náuseas e cólicas abdominais aparecem entre os efeitos relatados na documentação europeia.
O NCCIH também cita dor de cabeça, desconforto gastrointestinal, sensação de lentidão mental, inquietação e sonhos vívidos entre os efeitos observados. A segurança do uso prolongado permanece pouco conhecida.
Chá de Valeriana, álcool e medicamentos sedativos
A documentação europeia não apresenta um conjunto amplo de interações medicamentosas estabelecidas.
Isso não significa que todas as combinações tenham sido comprovadas como seguras.
O NCCIH recomenda cautela com álcool e medicamentos sedativos, pois os efeitos sobre sonolência e sistema nervoso central podem se somar.
Quem utiliza medicamentos para dormir, ansiedade, epilepsia ou outras condições que afetam o sistema nervoso deve buscar orientação antes de associá-los à valeriana.
🌿 Como escolher a raiz de Valeriana
Para preparar a infusão, procure matéria-prima identificada como:
Valeriana officinalis L.
e descrita como raiz seca e fragmentada ou droga vegetal rasurada.
Prefira produtos destinados ao uso fitoterápico, com:
identificação botânica;
lote;
validade;
procedência;
embalagem protegida da umidade.
A Farmacopeia Brasileira possui monografia específica para os órgãos subterrâneos de Valeriana officinalis, com critérios de identidade e qualidade da matéria-prima.
🌿 O que dizem as referências oficiais?
Na Europa, a EMA mantém uma monografia de Valerianae radix e distingue claramente o chá e outras preparações tradicionais do extrato etanólico específico enquadrado como uso bem estabelecido. A monografia entrou em novo processo periódico de revisão científica em 2025.
EMA — Valerianae radix: monografia europeia da raiz de Valeriana
A Anvisa disponibiliza também uma tradução brasileira da monografia europeia, na qual aparecem a preparação do chá com 0,3 a 3 g da raiz em 150 mL de água e o uso relacionado ao estresse mental leve e ao sono.
Anvisa — tradução da monografia de Valeriana officinalis, raiz
No Brasil, o Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição é o compêndio oficial atualmente vigente, desde 1º de julho de 2026.
Anvisa — Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira, 3ª edição
Perguntas frequentes sobre o Chá de Valeriana
Para que serve o chá de Valeriana?
Como fazer o chá de Valeriana?
Quanto tempo antes de dormir tomar o chá de Valeriana?
Chá de Valeriana trata insônia?
Quem deve evitar ou ter cuidado com o chá de Valeriana?
Conheça a trilogia da Valeriana
Explore a planta por meio da botânica, dos usos tradicionais e do preparo do chá.
🌿 Entre a raiz e o repouso
A valeriana não oferece uma xícara de perfume delicado.
Sua raiz é intensa, terrosa, peculiar.
Talvez isso combine com a história da própria planta.
Ela não chegou até nós como uma bebida feita para agradar ao paladar, mas como uma raiz que atravessou séculos associada ao repouso e à inquietação humana.
Hoje sabemos mais.
Sabemos que a infusão não é o extrato padronizado.
Que auxiliar o sono não significa tratar insônia clínica.
Que “acalmar” não é sinônimo de tratar ansiedade.
E que até uma planta tradicional precisa ser compreendida pela preparação que realmente estamos utilizando.
Uma xícara de valeriana continua podendo fazer parte de um ritual noturno.
Mas talvez seu valor esteja também em outra coisa:
lembrar que o sono não começa no momento em que fechamos os olhos.
Ele começa quando diminuímos o ritmo, apagamos algumas luzes, encerramos o ruído do dia e permitimos que o corpo reconheça que chegou a hora de repousar.
A ciência não transforma esse ritual em tratamento.
E o ritual não precisa fingir ser ciência.
No Benverde, os dois podem simplesmente ocupar seus lugares.
Este conteúdo possui caráter informativo e educacional. Não substitui orientação médica, diagnóstico ou tratamento profissional.
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